Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa
Projeto europeu testou soluções baseadas na natureza numa parcela vitícola da Galiza e apresentou os resultados de três anos de investigação

Ecospherewines demonstra como a biodiversidade pode reforçar a resiliência das vinhas

06/11/2026

Combinar práticas tradicionais e elementos da paisagem com ferramentas avançadas de análise, tendo em vista uma viticultura mais preparada para o futuro. Foi esta a abordagem seguida pelo projeto europeu Ecospherewines, que, ao longo dos últimos três anos, transformou os quase dez hectares da histórica parcela de A Picha, em Paderne (Corunha, Galiza), num laboratório vivo. Os resultados foram apresentados num encontro realizado no Centro Interdisciplinar de Química e Biologia (CICA) da Universidade da Corunha.

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Sob o título ‘Ecospherewines: rumo a uma viticultura mais ecológica na Galiza – resultados e desafios futuros para o setor vitícola’, o evento foi organizado pelos parceiros galegos do projeto: a Fundação Juana de Vega, a Universidade da Corunha, a Reserva da Biosfera Mariñas Coruñesas e Terras do Mandeo e o novo proprietário da adega Pagos de Brigante, que já manifestou a intenção de dar continuidade ao projeto. O encontro reuniu investigadores e profissionais do setor vitivinícola galego e serviu também para apresentar a ‘Estratégia de infraestruturas verdes na vinha da Ecospherewines’, um plano de ação com 25 medidas para o período de 2027 a 2030, dirigido a viticultores, denominações de origem e entidades da administração pública.

Situada na área geográfica da Indicação Geográfica Protegida (IGP) Betanzos e no território da Reserva da Biosfera Mariñas Coruñesas e Terras do Mandeo, A Picha é uma das quatro zonas experimentais do Ecospherewines. As restantes localizam-se na Denominação de Origem (DO) Arribes, em Arribes del Duero, entre Salamanca e Zamora; na Denominação de Origem Protegida (AOP) Gaillac, na região francesa da Occitânia; e na Denominação de Origem Controlada (DOC) Douro e DOC Porto, em Vila Nova de Foz Côa, no norte de Portugal.

Em Paderne, numa parcela de cerca de dez hectares organizada em socalcos e situada em frente ao vale encaixado do rio Mandeo, estão a ser testadas, desde 2024, novas práticas de gestão da vinha. O objetivo é demonstrar de que forma o investimento em capital natural pode contribuir para a viabilidade futura do setor vitivinícola.

Para Alfonso Ribas, diretor da área de Inovação e Investigação da Fundação Juana de Vega, entidade coordenadora do Ecospherewines, o principal desafio tem sido responder a uma preocupação crescente entre os viticultores: a dificuldade cada vez maior em manter a produtividade e a estabilidade das vinhas num contexto de alterações climáticas e de pressão acrescida sobre os recursos naturais.

A perda de fertilidade dos solos, a diminuição da biodiversidade e a redução da capacidade de retenção de água tornam as vinhas mais vulneráveis e dependentes de fatores de produção externos. “Não se trata apenas de conservar, mas de demonstrar que é possível trabalhar em conjunto com a natureza para manter uma produção de qualidade, melhorar a estabilidade do ecossistema e, simultaneamente, avançar para modelos vitivinícolas mais equilibrados do ponto de vista ambiental, económico e social”, explica Alfonso Ribas. A estratégia passa, acrescenta, por “evoluir de uma vinha intensiva para uma vinha em mosaico, que combina a produção de vinho com outras atividades complementares e potencia os serviços dos ecossistemas”.

Neste contexto, Vanessa Álvarez, investigadora Ramón y Cajal do CICA, destacou o potencial da economia circular na vinha: “a utilização de resíduos de matos como cobertura morta permite proteger o solo e reduzir a quantidade de biomassa combustível que favorece a propagação dos incêndios. Além disso, os ensaios com biocarvão de origem florestal revelaram aumentos do teor de carbono orgânico do solo, enquanto as coberturas vegetais contribuíram para melhorar a sua fertilidade. Estes resultados evidenciam a importância de adaptar as práticas às condições locais”.

Laboratório vivo para o setor vitivinícola do futuro

Ao longo dos três anos de projeto, o Ecospherewines procurou implementar no terreno diferentes Soluções Baseadas na Natureza (SBN), com potencial para reforçar até 14 serviços dos ecossistemas relacionados com a fertilidade e a saúde do solo, a biodiversidade, a retenção de água e a preservação da identidade cultural das paisagens vitícolas.

As intervenções em A Picha foram organizadas em três áreas principais. A primeira zona centrou-se na melhoria da saúde do solo, através de práticas de gestão mais sustentáveis. Os primeiros resultados apontam para melhorias significativas do vigor das videiras e do teor de clorofila, associadas à utilização de cobertura morta de tojo e à instalação de uma cobertura vegetal de mostarda. Foram também testadas técnicas de aplicação de dois tipos de biocarvão. Ao fim de 15 dias, os ensaios revelaram melhorias na atividade das enzimas relacionadas com o ciclo do carbono e no teor de nutrientes do solo.

A segunda zona foi dedicada à recuperação futura da vinha tradicional e à preservação da diversidade genética da IGP Betanzos. Nesta área, foram preparados vários taludes com espécies vegetais comestíveis e árvores autóctones, com o objetivo de contribuir para a estabilização das zonas em socalcos. Foram também aplicados fertilizantes obtidos por lactofermentação, à base de soro de leite, para melhorar a atividade microbiológica do solo.

Na terceira zona, a intervenção procurou demonstrar que a melhoria da vinha passa também por atuar sobre a paisagem envolvente. Foram recuperados caminhos e muros de pedra seca, restauradas a nascente de A Picha – que dá nome à parcela – e a respetiva lagoa, bem como outras zonas húmidas com potencial para favorecer a biodiversidade local. Os trabalhos incluíram ainda a regeneração da galeria ripícola, para contribuir para a regulação microclimática, e a instalação de um bosque comestível, com árvores de fruto e faixas floridas destinadas a favorecer a presença de polinizadores.

Esta área funciona também como zona de transição entre a vinha e o ambiente natural. A intervenção teve em conta os valores paisagísticos do território e pretende dar a conhecer a filosofia do projeto a futuros visitantes, criando condições para desenvolver um enoturismo associado à conservação da natureza.

Recuperar o passado para construir o futuro

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O conjunto de intervenções realizado na zona experimental galega do Ecospherewines contribuiu para recuperar a infraestrutura verde em torno da vinha. Esta infraestrutura corresponde a uma rede de elementos naturais e seminaturais que proporciona benefícios como a conservação do solo, a prevenção da erosão, a regulação dos recursos hídricos, a captura de carbono, a promoção da biodiversidade e a preservação da identidade cultural do território.

O próximo desafio consiste em transferir o conhecimento gerado para facilitar a adoção destas práticas por viticultores, adegas e outros territórios vitivinícolas. Na primavera de 2026, a equipa técnica da Fundação Juana de Vega apresentou a ‘Estratégia de infraestruturas verdes na vinha da Ecospherewines’ e os primeiros resultados da investigação junto de representantes da Denominação de Origem Protegida (DOP) Montilla-Moriles, no sul de Córdova; da DOP Penedès, entre Barcelona e Tarragona; e da DO Valdeorras, em Ourense. Estas entidades manifestaram interesse em estudar a aplicação das soluções testadas e validadas pelo projeto.

Para além das intervenções concretas, A Picha ilustra uma das principais conclusões do projeto: a produção e a conservação da natureza não são objetivos incompatíveis. A recuperação de castas locais, a melhoria da saúde do solo e a conservação de muros, zonas húmidas, galerias ripícolas e outros elementos da paisagem podem contribuir para criar vinhas mais sustentáveis e resilientes. Ao mesmo tempo, permitem reforçar a identidade dos territórios e o valor diferenciador dos seus vinhos.

Os resultados obtidos poderão também servir de ponto de partida para novas iniciativas empresariais na IGP Betanzos, como o projeto associado à nova adega Pagos de Brigante. Esta perspetiva demonstra o potencial económico, ambiental e cultural de um modelo de viticultura mais consciente e sustentável, capaz de contribuir para o futuro da viticultura atlântica.

A nível institucional, a Fundação Juana de Vega apresentou uma candidatura a um concurso do programa Interreg Sudoe para financiar um novo projeto de inovação que permita dar continuidade ao trabalho desenvolvido no Ecospherewines.

O Ecospherewines é um projeto de investigação aplicada dedicado à gestão sustentável de vinhas em Espanha, França e Portugal, situadas em territórios de elevada relevância ecológica. O projeto decorre entre janeiro de 2024 e dezembro de 2026 e dispõe de um orçamento de 1.622.891 euros, cofinanciado em 75% pelo Programa Interreg Sudoe, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

O consórcio integra 12 entidades de Espanha, França e Portugal e é coordenado pela Fundação Juana de Vega.

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