A mudança já se sente em algumas fileiras e explorações mais profissionalizadas, sobretudo ligadas à exportação e a grandes cadeias de valor. Mas noutras faltam dados e capacidade de monitorização, deixando por responder uma questão central: quanto custa reduzir o carbono e quem fica com o valor criado?
A agricultura está no centro desta discussão. Emite gases com efeito de estufa através da fertilização, gestão de efluentes, combustíveis e energia, mas pode também remover e armazenar carbono nos solos, culturas permanentes, pastagens e sistemas agroflorestais. É neste contexto que a Comissão Europeia tem promovido o carbon farming e, em julho de 2026, adotou as primeiras metodologias europeias específicas para estas atividades, abrangendo a agricultura e agrofloresta em solos minerais, a recuperação de turfeiras e outros solos orgânicos e a aforestação.
Calcular a pegada de carbono significa quantificar as emissões de gases com efeito de estufa associadas a uma atividade ou sistema produtivo, começando pela identificação das diferentes fontes de emissão. Numa exploração agrícola devem ser consideradas as emissões diretamente geradas pela atividade – como a combustão de combustível, determinadas emissões associadas à fertilização e à gestão dos solos ou a atividade pecuária –, mas também as emissões indiretas associadas à energia adquirida e a outras etapas da cadeia de valor.
É esta a lógica dos Scopes do GHG Protocol (Greenhouse Gas Protocol): o Scope 1 corresponde às emissões diretas de fontes que a exploração possui ou controla; o Scope 2 às emissões indiretas associadas à produção da energia adquirida, como a eletricidade; e o Scope 3 às restantes emissões indiretas que ocorrem na cadeia de valor, tanto a montante como a jusante.
Na prática, a quantificação da pegada de carbono de uma exploração pode exigir informação sobre fertilizantes e outros fatores de produção, combustíveis, eletricidade, rega, operações culturais, atividade pecuária, produtividade e características do solo. O Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) defende, contudo, que o objetivo não é medir tudo indiscriminadamente, mas identificar os pontos críticos onde se concentra uma parte significativa do impacto e onde a alteração das práticas pode produzir maiores ganhos. Dependendo da metodologia de cálculo, podem também ser relevantes dados sobre as condições meteorológicas e outros fatores que influenciem as emissões ou a capacidade de sequestro de carbono.
Portugal já tem exemplos de empresas que fazem este trabalho, particularmente no setor vitivinícola. A Sogrape, a Symington Family Estates e a Herdade do Esporão estão entre os casos identificados pelo INIAV. Mas a realidade do setor é muito mais fragmentada: mais de 98% das unidades vitivinícolas são PME e, para muitas explorações, o problema começa antes do cálculo, na inexistência de dados organizados e recolhidos de forma sistemática.
Para o INIAV, há ainda uma cautela fundamental: “o carbono é um indicador essencial, mas não é sinónimo de sustentabilidade”. Ou seja, uma prática pode reduzir emissões e, simultaneamente, aumentar a pressão sobre a água, o solo ou a biodiversidade. Avaliar a agricultura pelo carbono exige, por isso, olhar para o sistema como um todo.
E esse sistema começa no solo. Em Portugal, muitos solos apresentam teores relativamente baixos de matéria orgânica, o que significa que existe margem para aumentar o armazenamento de carbono através de cobertos vegetais, incorporação de matéria orgânica, redução da mobilização, agrofloresta ou melhoria da gestão das pastagens. As vantagens podem ultrapassar o carbono: maior retenção de água, fertilidade, biodiversidade funcional e resistência a condições climáticas adversas.
É aqui que a questão deixa de ser apenas agrícola e passa a ser também científica. Se o carbono armazenado no solo vai ser medido, certificado e eventualmente remunerado, é preciso saber medi-lo nas condições portuguesas.
Embora reconheça que países como a Irlanda, a França, os Países Baixos e a Dinamarca iniciaram mais cedo programas estruturados de monitorização das emissões agrícolas e valorização do carbono, o INIAV identifica uma vantagem específica de Portugal: décadas de informação sobre os solos, laboratórios de referência, ensaios de longa duração e uma diversidade de sistemas mediterrânicos que inclui montados, pastagens, agrofloresta, vinha, olival e outras culturas. A plataforma INFOSOLO, do INIAV, reúne informação georreferenciada de milhares de perfis de solo, com dados recolhidos entre 1966 e 2022. A este património juntam-se a Pedoteca, os laboratórios de referência e os ensaios de longa duração, que permitem cruzar décadas de observação com novas ferramentas de monitorização e modelação. “São décadas de observação que não podem ser reconstituídas nem adquiridas: ou existem, ou o país fica sem ponto de partida para saber como evoluem os seus solos”, sublinha o INIAV.
Essa base é importante porque o potencial de sequestro varia consoante a região, o tipo de solo e o sistema produtivo. Não basta importar uma metodologia desenvolvida para outra realidade e aplicá-la indistintamente. É necessário validar soluções e desenvolver métodos adequados às condições edafoclimáticas nacionais. A medição enfrenta ainda três desafios científicos: a variabilidade entre solos e ao longo do tempo, a comparabilidade entre diferentes metodologias e a incerteza inerente às estimativas, que deve ser quantificada.
É também por isso que o INIAV coloca a questão em termos que vão além da contabilização: “a questão central, hoje, já não é saber se a agricultura pode reduzir a sua intensidade carbónica – sabemos que pode. É saber se Portugal dispõe de capacidade científica própria para medir essa evolução nas suas condições”.
Aqui, o papel do INIAV ultrapassa a produção de conhecimento. Como Laboratório de Estado, a instituição aponta quatro funções centrais: manter a infraestrutura nacional de conhecimento sobre os solos; validar soluções nas condições portuguesas; reduzir a incerteza e garantir a comparabilidade das medições; e tornar esse conhecimento utilizável pelas explorações, através de ferramentas mais simples, rápidas e acessíveis às PME.
Esta última dimensão é decisiva. Uma metodologia que apenas uma grande empresa consiga aplicar dificilmente servirá um setor composto maioritariamente por pequenas e médias explorações. O desafio científico passa, por isso, também por transformar conhecimento acumulado em ferramentas que possam ser utilizadas a uma escala muito mais ampla.
Quando essas reduções ou remoções podem ser quantificadas e certificadas, entra em cena o mercado de carbono. Em termos simples, uma exploração pode reduzir emissões ou aumentar o carbono armazenado. Medir essa alteração, porém, não significa automaticamente gerar um crédito de carbono.
Entre a prática agrícola e uma unidade certificada existe uma cadeia de requisitos: cenário de referência, adicionalidade, permanência, risco de reversão, incerteza, monitorização e ausência de dupla contabilização. É necessário demonstrar que o resultado climático é real, quantificável e elegível segundo uma metodologia aplicável. A tecnologia pode ajudar a produzir essa evidência, mas não substitui a metodologia nem a verificação exigida para a certificação.
O Enquadramento Europeu de Certificação de Remoções de Carbono (CRCF – Carbon Removal Certification Framework) criou uma base voluntária comum para a certificação e, em 2026, avançou com metodologias específicas para carbon farming. Em Portugal, contudo, a oferta continua fragmentada. Bruno Caldeira, diretor de Desenvolvimento de Negócios da Consulai, identifica vários mercados e esquemas privados e internacionais, com metodologias e níveis de exigência diferentes, ao lado do mercado voluntário nacional, que considera mais promissor pela existência de regulação estatal. Na agricultura, este mercado ainda apresenta metodologias e volumes limitados.
E há uma diferença igualmente importante entre criar um crédito e criar rendimento. “O crédito de carbono não deve ser lido como rendimento extra”, alerta a Consulai. A curto prazo, a consultora considera mais realista articulá-lo com outras fontes de valor, como apoios do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), prémios de qualidade ou contratos com a indústria, do que tratá-lo como uma fonte autónoma de rendimento.
Os preços voláteis, os pequenos volumes por exploração e os custos de certificação e monitorização podem consumir uma parte significativa do valor, sobretudo nas explorações de menor dimensão. A adesão depende também da relação custo-benefício: alterar práticas pode exigir investimento e, em alguns casos, provocar perdas iniciais de produtividade que os apoios não compensam totalmente.
O próprio PEPAC ilustra a dificuldade. Grande parte dos instrumentos atua de forma indireta sobre a redução de emissões e a sustentabilidade, enquanto as medidas mais diretamente orientadas para estes objetivos têm ainda uma expressão limitada. Para a Consulai, os apoios existentes criam sinais favoráveis, mas não são ainda suficientes para provocar uma mudança estrutural e massificada.
A adesão esbarra também em obstáculos como o acesso a capital, a complexidade burocrática, a falta de conhecimento e dados, a incerteza sobre o retorno e a reduzida escala das explorações. Quando a agricultura sustentável não obtém um prémio no mercado, a pegada tende, por isso, a ser encarada como custo.
Neste sentido, o carbono começa a deixar de ser apenas uma questão ambiental. As empresas de maior dimensão sujeitas a requisitos de reporte precisam de conhecer as emissões das suas cadeias de valor. A obrigação pode não recair diretamente sobre o agricultor, mas chega até ele através dos clientes.
“Neste momento, o que move o setor é conformidade, não estratégia”, resume Bruno Caldeira. E essa conformidade pode assumir uma forma muito concreta: “não como regulação que tem de ser cumprida, mas como condição para continuar a vender”.
A AgroInsider vê precisamente aqui uma mudança de competitividade. Entre dois produtos equivalentes, aquele que conseguir demonstrar menor pegada carbónica poderá responder melhor às exigências de clientes, distribuição e indústria agroalimentar. Mas a Consulai alerta para uma assimetria: produtores portugueses podem suportar custos de medição, conformidade e alteração de práticas que não são necessariamente enfrentados por concorrentes de outras geografias.
E mesmo quando existe um prémio associado à sustentabilidade ao longo da cadeia, esse valor nem sempre chega ao produtor, que mantém uma capacidade negocial limitada.
Há, contudo, uma dimensão económica que não depende exclusivamente de existir um prémio de mercado: fertilizantes, combustível, energia e água estão entre os fatores associados à pegada carbónica e representam também custos para a exploração. Melhorar a utilização destes recursos pode reduzir simultaneamente desperdícios, custos e emissões.
“A pegada de carbono pode, por isso, funcionar também como um indicador de eficiência da exploração”, conclui a AgroInsider.
Esta ligação entre carbono e produtividade é também uma das ideias sublinhadas pela Consulai. Em vez de pensar na descarbonização como uma despesa adicional, a consultora defende que o caminho mais interessante pode passar por associá-la à própria capacidade produtiva do solo.
A agricultura regenerativa surge neste ponto como uma possibilidade concreta. Em Portugal, onde muitos solos partem de teores baixos de matéria orgânica, aumentá-la pode contribuir simultaneamente para o armazenamento de carbono, a retenção de água, a fertilidade e a resiliência perante condições climáticas adversas.
“Não se trata de sacrificar produção para armazenar carbono”, advoga a Consulai. E continua: “trata-se de reconhecer que solos com mais matéria orgânica retêm mais água, respondem melhor a anos difíceis e sustentam melhores produtividades”.
A diferença é importante. Se a exploração tiver de escolher entre produzir e armazenar carbono, dificilmente o segundo objetivo prevalecerá. Se a mesma prática contribuir para produzir de forma mais eficiente e resiliente, o carbono passa a ser consequência e ativo adicional, em vez de ser o único argumento económico.
Para tornar a medição mais acessível, a tecnologia terá um papel importante. Tanto a agricultura de precisão como satélites, sensores, máquinas agrícolas, cadernos de campo digitais e inteligência artificial podem melhorar a recolha e organização dos dados, aumentar a resolução das estimativas e reduzir o custo da monitorização.
Grande parte das emissões agrícolas não é medida diretamente: é estimada a partir de dados de atividade, fatores de emissão e modelos. No sequestro de carbono, a combinação de amostras de solo, deteção remota, mapas digitais, meteorologia e modelos pode permitir acompanhar alterações com maior frequência e menor custo.
Mas a digitalização não elimina a necessidade de validação científica. O INIAV identifica obstáculos práticos como a conectividade rural, o custo dos equipamentos, o acesso e a interoperabilidade dos dados e a disponibilidade de competências para os utilizar. E, para a certificação, é necessário garantir que aquilo que é calculado digitalmente corresponde ao que acontece na exploração.
É essa combinação – dados mais acessíveis, ferramentas digitais, conhecimento científico e validação no terreno – que pode permitir reduzir o custo da chamada MRV, isto é, monitorização, reporte e verificação. A redução desse custo será particularmente importante para as pequenas e médias explorações, para as quais uma metodologia tecnicamente robusta mas demasiado cara pode ser, na prática, inutilizável.
Mais do que gerar créditos, o objetivo poderá ser outro: “o carbono deverá tornar-se progressivamente mais um indicador de gestão da exploração”, acredita a AgroInsider.
É neste ponto que a discussão ganha uma dimensão ainda mais interessante. Se os créditos forem caros de medir, sujeitos a volatilidade e pouco expressivos à escala de uma exploração, pode fazer mais sentido remunerar um conjunto de benefícios ambientais.
A Consulai aponta para um mercado de serviços dos ecossistemas, inspirado em modelos como o FSC (Forest Stewardship Council) na floresta: em vez de pagar apenas pela tonelada de CO2, remunerar simultaneamente carbono, água, biodiversidade, solo e paisagem. “O carbono é uma das dimensões e não o produto único”, defende a consultora.
A hipótese muda a pergunta inicial. Talvez o futuro económico do carbono agrícola não esteja em transformar cada tonelada sequestrada numa mercadoria isolada, mas em reconhecer o conjunto de serviços que uma exploração presta enquanto produz alimentos. O desafio está agora em transformar o conhecimento e as ferramentas que Portugal já possui num sistema de medição, gestão e valorização acessível às explorações. Se a medição for comparável, credível e economicamente viável, o carbono poderá deixar de ser apenas uma exigência e passar a apoiar decisões, reduzir custos, aumentar a resiliência e demonstrar valor ao longo da cadeia.