A segunda edição do The Farm Changers 2.0: Dos Dados ao Prato – Byte to Bite reuniu, no John Deere Parla Innovation Center, mais de uma centena de representantes do setor agroalimentar para abordar os desafios das culturas lenhosas e mostrar, através de casos de sucesso e demonstrações no terreno, como a agricultura de precisão, a digitalização, a automatização e a eletrificação podem transformar as explorações agrícolas.
O John Deere Parla Innovation Center (PIC), em Parla (Madrid), voltou a ser, no dia 14 de setembro, o ponto de encontro para analisar o presente e o futuro da agricultura. A segunda edição do The Farm Changers 2.0: Dos Dados ao Prato – Byte to Bite centrou-se, desta vez, nas culturas lenhosas, depois de a primeira edição, realizada em 2025, ter sido dedicada às culturas extensivas. Mais de uma centena de profissionais do setor agroalimentar participaram num evento que combinou debate, apresentação de casos reais e demonstrações tecnológicas.
Entre os participantes, esteve o ministro espanhol da Agricultura, Pescas e Alimentação, Luis Planas, que sublinhou uma ideia transversal ao longo do encontro: a tecnologia deve contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos e para melhorar a competitividade e a sustentabilidade das explorações agrícolas. Segundo explicou, a digitalização permite reduzir custos e melhorar a tomada de decisões em tempo real.
O ministro associou também esta transformação tecnológica à necessidade de contar com os agricultores, especialmente os das pequenas explorações, e de acompanhar a adoção de novas ferramentas com formação, aconselhamento e transferência de conhecimento. “Temos de potenciar a agricultura de precisão contando com os agricultores e, em particular, com os pequenos agricultores”.
Neste sentido, recordou que o Governo destinou 223,4 milhões de euros a 6 655 investimentos em agricultura de precisão no âmbito do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência, além de 83 milhões de euros para cerca de 150 projetos inovadores e de 9,55 milhões de euros para o Renove 2026.
Após as boas-vindas, o programa arrancou com uma mesa-redonda dedicada ao futuro do setor agroalimentar. O debate centrou-se em três questões especialmente relevantes para a agricultura espanhola: a utilização eficiente da água, o desenvolvimento da agricultura de precisão e as regras do comércio internacional.
Planas identificou ainda a renovação geracional como um dos grandes desafios do setor agrícola. A integração de jovens com maior preparação tecnológica está, assim, ligada a uma agricultura em que os dados, a robótica e a inteligência artificial tenham uma aplicação prática e orientada para as necessidades reais das explorações.
Esta visão coincidiu com a abordagem da John Deere. Jaime Muguiro, novo diretor de Negócios da John Deere Ibérica, salientou que a agricultura espanhola enfrenta uma transformação acelerada e que a tecnologia constitui uma das ferramentas para manter a produtividade e a rentabilidade de um setor estratégico.
“Nunca a agricultura foi tão importante, e nunca antes teve necessidade de se adaptar tão rapidamente”, explicou. “Estamos no centro dos grandes desafios da humanidade, desde a segurança alimentar até à produtividade e rentabilidade. Por vezes, fala-se dela como se fosse apenas mais um setor, quando a Espanha é líder em algumas das culturas mais estratégicas, como o azeite, as árvores de fruto e as culturas críticas. Ou as culturas lenhosas, que são um símbolo de identidade do nosso país e para as quais o Parla Innovation Center procura soluções inovadoras”.
“Localizar este centro de inovação em Espanha foi uma decisão estratégica acertada. Para continuarmos a ser uma grande potência agroalimentar, precisamos de tecnologias que nos permitam fazer um uso mais eficiente dos recursos. Felicito a John Deere pelo seu trabalho nesta área, pela sua tradição tecnológica e empresarial e pelo seu papel fundamental na promoção da colaboração e do diálogo com as universidades, os centros de investigação, as empresas e os agricultores e criadores de gado”, afirmou o ministro Planas.
Durante os seus primeiros quatro anos, o centro impulsionou mais de dez projetos relacionados com desafios concretos das culturas lenhosas, entre os quais a fertilização de precisão, a irrigação e a saúde do solo. A filosofia do PIC parte do princípio de que estas culturas necessitam de soluções específicas, e não de meras adaptações das tecnologias desenvolvidas para a agricultura extensiva.
“Quando inaugurámos o PIC há quatro anos, partíamos de uma convicção: as culturas de elevado valor não necessitavam de adaptações da agricultura extensiva, mas sim de soluções próprias. Hoje, com a experiência que acumulámos, podemos afirmar que essa aposta se confirmou. Desenvolver tecnologia em Espanha, em colaboração com alguns dos produtores mais competitivos, permite-nos validá-la nas condições mais exigentes e, posteriormente, levá-la aos restantes mercados”, salientou Javier Fernández, responsável pelo John Deere Parla Innovation Center.
O segundo caso apresentado foi o John Deere Operations Center, uma plataforma digital que permite integrar informação agronómica e utilizar os dados gerados durante as operações para facilitar a tomada de decisões. As experiências da Prunus Nuts e da Bodegas Matarromera permitiram aplicar esta proposta a duas realidades concretas: a amendoeira e a vinha.
O percurso tecnológico foi completado com o GUSS, uma solução de pulverização autónoma que também utiliza este ecossistema digital. A AceSur partilhou a sua experiência no olival, colocando o foco nas possibilidades da automatização para melhorar a eficiência e a segurança das operações.
A última parte do encontro levou a inovação do espaço de debate para o próprio campo do PIC. As demonstrações dinâmicas permitiram verificar no terreno o funcionamento de diferentes tecnologias de precisão aplicadas a tratores para culturas especiais, além de mostrar o papel dos dados obtidos durante os trabalhos agrícolas e vários projetos que ainda se encontram em desenvolvimento.
Entre as soluções que suscitaram maior interesse destacou-se o trator totalmente elétrico E-Power, cujo protótipo tinha sido apresentado internacionalmente na Agritechnica 2025. O modelo conta com até cinco baterias Kreisel, atinge 130 cv de potência e mantém a compatibilidade com alfaias agrícolas. A sua apresentação permitiu introduzir no debate uma via adicional para a evolução da maquinaria agrícola: a eletrificação e as alternativas de propulsão com emissões reduzidas ou nulas.
A demonstração incluiu também o YieldDoc, uma tecnologia destinada ao registo e à análise da produtividade durante a colheita de culturas especiais e de elevado valor, como a batata, a cebola ou a beterraba.
Assim, a segunda edição do The Farm Changers 2.0 articulou um percurso que foi do debate estratégico à aplicação prática: primeiro, os desafios que o setor enfrenta; depois, o papel de um ecossistema de inovação como o PIC; em seguida, casos reais de digitalização e automatização; e, finalmente, demonstrações no terreno. Uma abordagem que liga os dados gerados na exploração à tomada de decisões e às tecnologias concebidas para responder às necessidades específicas das culturas lenhosas.