A CONSULAI apresentou a 25 de março, em Lisboa, uma análise aprofundada sobre as dinâmicas estruturais do trabalho no setor agrícola e os desafios críticos de talento e qualificação que moldarão o seu futuro em Portugal. O estudo, que assinala os 25 anos da consultora em agribusiness, revela que a agricultura nacional está hoje mais produtiva, mais profissionalizada e mais orientada para a criação de valor, apesar de operar com menos recursos humanos. No almoço de imprensa em que a Agriterra participou, a CONSULAI apresentou ainda a segunda fase do B-Rural, hub nacional que, até agosto de 2026, volta a valorizar o setor agroflorestal junto dos consumidores. Leia a reportagem completa do encontro na próxima edição da sua revista profissional para a agricultura portuguesa.
A produtividade no setor agrícola mais do que duplicou em três décadas, com menos trabalhadores e emprego, e com mais assalariados e menos trabalho familiar. A agricultura é o setor que mais depende de mão de obra estrangeira em Portugal (mais de 40% da força de trabalho em 2023 já o era) e os trabalhadores estrangeiros são mais qualificados do que os nacionais; os salários na agricultura cresceram mais de 50% em dez anos, mas continuam abaixo da média nacional. O envelhecimento dos agricultores continua acelerado, com a idade média a atingir os 59 anos; e o futuro exige competências tecnológicas e digitais. São estas as principais conclusões do estudo ‘Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal’, que assinala os 25 anos da fundação da consultora e o seu empenho em reforçar a compreensão sobre o impacto económico e territorial do setor agrícola, bem como o seu contributo para a segurança alimentar, a gestão sustentável dos recursos naturais e a mitigação das alterações climáticas, num contexto de transformação acelerada do agronegócio.
A análise aprofundada sobre as dinâmicas do trabalho e os desafios críticos do setor em Portugal “evidencia uma mudança estrutural significativa: a agricultura portuguesa está hoje mais produtiva, mais profissionalizada e mais orientada para a criação de valor, apesar de operar com menos recursos humanos”. Esta transformação é “sustentada pela modernização tecnológica e pela mecanização, que permitem elevar a produtividade sem a necessidade de aumentar proporcionalmente a mão-de-obra”.
A agricultura está a tornar-se cada vez mais tecnológica, integrando automação, sensores, inteligência artificial e serviços especializados. Este novo paradigma exige trabalhadores com competências técnicas e digitais, num contexto em que a tecnologia substitui tarefas manuais e potencia ganhos de eficiência.
Segundo Pedro Santos, diretor-geral da CONSULAI, “nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica. Mas o responsável alerta que a escassez de mão de obra e a dificuldade em atrair talento qualificado e jovem condicionam a sua sustentabilidade e competitividade: “o futuro da agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola. Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perder o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo”.
O estudo revela que nas últimas três décadas, o volume de trabalhadores na agricultura registou uma redução expressiva, tendo passado dos mais de 430 mil para cerca de 220 mil trabalhadores a tempo integral. Em contrapartida, o valor gerado pelo setor aumentou, permitindo que a produtividade mais do que duplicasse - um reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar no setor.
O número de pessoas empregadas estabilizou entre 165 mil e 180 mil, com uma redução acentuada do trabalho familiar e um crescimento do trabalho assalariado, que representava já cerca de 40% do total em 2023, segundo os dados mais recentes do INE. Por outro lado, o peso da mão-de-obra estrangeira no setor em Portugal, que ultrapassa os 40%, quadruplicou desde 2014, e é hoje particularmente crítico para as culturas intensivas e sazonais, assegurando os picos de produção e a continuidade operacional.
Segundo a análise baseada numa abordagem integrada de fontes estatísticas oficiais, 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor agrícola só possuem o grau do ensino básico e os estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos portugueses: 7,5% possuem cursos superior, face a 2,7% dos trabalhadores nacionais.
Em termos salariais, a remuneração média agrícola cresceu cerca de 50% na última década, aproximando-se dos 1.000 euros mensais. Ainda assim, este valor permanece significativamente abaixo da média nacional (1.742 euros), o que limita a capacidade do setor para atrair talento jovem e mais qualificado, que será imprescindível no contexto de uma agricultura cada vez mais digitalizada e de precisão, onde os dados imperam e a tecnologia domina.
O estudo conclui igualmente que a agricultura portuguesa apresenta fortes assimetrias regionais. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare.
O envelhecimento da força de trabalho é uma das tendências mais preocupantes: a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023. Em paralelo, a mão-de-obra familiar caiu mais de 60%, evidenciando uma clara ausência de renovação geracional.
Tendências e recomendações
O estudo identifica sete principais tendências a acompanhar nos próximos anos:
E propõe um importante conjunto de recomendações que refletem o que a CONSULAI considera serem as respostas para os desafios do setor agrícola, numa atuação articulada entre empresas, políticas públicas e o ecossistema setorial:
B-Rural Summit reúne decisores políticos, produtores, académicos, gestores, jovens e sociedade civil
O B-Rural, projeto da CONSULAI cofinanciado pela Comissão Europeia, entra na segunda fase em 2026 para promover o diálogo entre produtores agrícolas e florestais e consumidores urbanos, dando visibilidade a um setor que gera mais de 9,4 mil milhões de euros de VAB, que representa já mais de 12% das exportações nacionais e que emprega mais de 456 mil pessoas.
A empresa de consultoria em agribusiness volta a apostar no hub nacional para valorizar o setor agroflorestal e aproximar o mundo rural e mundo urbano.
O arranque desta segunda fase do B-Rural, “uma iniciativa emblemática que pretende aproximar produtores e consumidores urbanos e estimular um debate mais alargado na sociedade civil sobre o papel estratégico da agricultura e da floresta no desenvolvimento do país” tem o seu ponto alto em junho, com a realização do B-Rural Summit, que irá reunir em Lisboa decisores políticos, produtores, académicos, gestores, jovens e sociedade civil.
De acordo com Rui Almeida, diretor operacional da CONSULAI “o B-Rural nasce da necessidade de aproximar quem produz de quem consome. Queremos criar mais conhecimento sobre o setor agrícola e florestal na sociedade, valorizar o trabalho dos produtores e promover um diálogo construtivo com os consumidores”. Um desafio essencial, “num país onde cerca de dois terços da população vivem em áreas urbanas”. A iniciativa, que decorre até agosto de 2026, pretende reforçar a compreensão sobre o impacto económico e territorial do setor agroflorestal, bem como o seu contributo para a segurança alimentar, a gestão sustentável dos recursos naturais e a mitigação das alterações climáticas.
O B-Rural conta com o apoio de várias associações representativas do setor agrícola e florestal, entre as quais a ALPORC, a ANPOC, a ANPROMIS, a ANSEME, a APOSOLO, a CAP, a CONFAGRI, a CropLife Portugal, a FNOP, a OLIVUM, a Portugal Fresh e a Portugal Nuts.
