Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

O renascimento da vinha em Portugal: da talha ao solo vivo

Romeu Martins, CEO da Adega Malápio e Vitivinicultor

19/02/2026

Portugal vive um momento único na sua história vitivinícola. Enquanto o mundo olha para o futuro em busca de resiliência climática, a viticultura nacional responde com um regresso às origens, onde a Adega Centenária Malápio e as tradições da Bairrada e do vinho de talha servem de farol para uma nova consciência produtiva.

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1. O legado ancestral: vinhas medievais e de talha

A preservação da identidade começa na terra. As vinhas medievais e a tradição do vinho de talha, influenciado pelas práticas de mínima intervenção, não são apenas peças de museu; são reservatórios de biodiversidade genética.

  • Recuperação de castas: o foco atual não passa apenas por produzir, mas por resgatar castas autóctones esquecidas que, por natureza, estão mais adaptadas ao nosso terroir (Bairrada) e às oscilações térmicas.
  • O estilo da Bairrada: na Bairrada, a casta Baga exige uma compreensão profunda do solo e do clima. A recuperação de vinhas velhas nesta região é um exercício de paciência e respeito pelo ecossistema.
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2. Agricultura regenerativa: o solo como organismo vivo

O estado-da-arte da viticultura em Portugal já não se mede apenas pelo brix da uva, mas pela saúde do microbioma do solo. A agricultura regenerativa propõe inverter a degradação dos solos convencionais através de:

  • Coberturas vegetais: em vez do solo despido e exposto à erosão, utilizam-se coberturas que fixam azoto e sequestram carbono.
  • Aumento da matéria orgânica: o abandono de herbicidas e a introdução de compostagem natural e adubos nutricionais permitem que o solo recupere a sua estrutura esponjosa, retendo mais água – vital num cenário de seca.
  • Biodiversidade funcional: manter intacto o ecossistema que atrai auxiliares naturais no combate a pragas.
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3. O caso da Adega Malápio: manejo da vinha

A gestão da vinha medieval da Adega Malápio é um exemplo raro de viticultura de conservação, onde técnicas ancestrais são aplicadas com rigor científico para garantir a longevidade de um património vivo.

A) A poda de respeito e renovação

Ao contrário da viticultura industrial, que procura uniformidade, o manuseamento na Malápio trata cada videira como um indivíduo.

  • Controlo do hábito trepador: como a videira é uma trepadeira, a tendência natural é elevar-se. A gestão da vinha Malápio intervém estrategicamente através da poda de renovação, aproveitando talões mais baixos para 'baixar' a planta, cortando o ramo principal acima destes para rejuvenescer a estrutura sem perder a força da raiz centenária.
  • Carga equilibrada: a opção é clara: não sobrecarregar. Utiliza-se geralmente uma vara e uma espera (um talão de reserva) por videira. Esta carga baixa garante que a planta concentre toda a sua energia e nutrientes num número limitado de cachos.
  • Ripagem de olhos (técnica da empa): Uma técnica distintiva é a ripagem de três olhos nas pontas das varas durante a empa. Isto obriga a videira a produzir cachos no início das varas, onde o fluxo de seiva é mais vigoroso, resultando em uvas com sabor mais concentrado e superior.

B) Alta densidade e competição

A vinha medieval Malápio apresenta uma densidade extraordinária de 10 mil plantas por hectare.

  • Luta por nutrientes: esta densidade obriga as raízes a mergulhar profundamente no solo argilo-calcário em busca de sustento. A competição entre as plantas resulta naturalmente em bagos mais pequenos, com uma relação película superior, o que confere mais cor, taninos e precursores aromáticos ao vinho.
  • Auto-regulação do vigor: os clones antigos presentes nesta vinha são naturalmente menos produtivos, o que, aliado à densidade, dispensa o uso de reguladores de crescimento químicos.

C) Biodiversidade genética (field blend)

O manuseamento desta vinha não separa as castas. Estas estão misturadas (Baga, Cercial, Cercialinho, Rabo de Ovelha, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Maria Gomes, Bical, Bastardo e Trincadeira), o que funciona como um seguro biológico:

  • Resiliência: diferentes castas reagem de forma distinta a pragas ou variações climáticas, garantindo que a qualidade do lote final seja constante mesmo em anos difíceis.
  • Sanidade Natural: devido à estrutura da vinha e à seleção de clones, os cachos são mais arejados (menos apertados). Mesmo em anos de chuva na Bairrada, a vinha medieval mantém os seus cachos 'imaculadamente sãos', resistindo melhor à podridão do que as vinhas modernas de clones produtivos.

D) Sustentabilidade e intervenção manual

  • Manutenção artesanal: o uso de tutores de madeira e a amarração com vime (colhido na própria vinha) reforça o ciclo circular de materiais, evitando plásticos e metais desnecessários.
  • Proteção cirúrgica: a intervenção fitossanitária é minimalista e preventiva. O uso de sulfato é feito apenas nos momentos críticos (quando o binómio temperatura/humidade favorece os fungos), permitindo que a vinha desenvolva as suas próprias defesas.
  • Solo vivo: a preparação e fertilização do solo argilo-calcário foca-se na nutrição orgânica, assegurando que a 'melodia constante' da vinha não seja interrompida por picos de fertilização artificial.

O solo regenerado é o seguro de vida dos vinhos portugueses para as próximas décadas, garantindo que adegas como a Malápio continuem a contar a história do nosso território em cada garrafa.

Em suma, a gestão da Adega Malápio é uma viticultura de precisão feita à mão. Não se desenha para baixar custos ou mecanizar, mas sim para ouvir o que cada planta centenária precisa para continuar a produzir excelência.

A convergência entre a Bairrada e o vinho de talha na Adega Malápio representa um dos exercícios mais ousados e interessantes da viticultura nacional contemporânea. É o encontro de duas forças geológicas e culturais distintas: o barro e o solo argilo-calcário da Bairrada.

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Os pontos fundamentais que definem o vinho de talha da Adega Malápio:

1. A desconstrução do dogma

Tradicionalmente, a Bairrada é a terra do espumante e dos tintos potentes de Baga. Ao introduzir a talha (ânfora de barro), a Malápio recupera um método de vinificação romano que retira o protagonismo à madeira (carvalho) e o devolve à pureza do fruto e à micro-oxigenação natural do barro.

2. O papel do solo argilo-calcário

Ao contrário do Alentejo, onde os solos são frequentemente de xisto ou granito, a Malápio utiliza as uvas das suas vinhas medievais plantadas em solo argilo-calcário.

  • Mineralidade: o barro da talha potencia a frescura e a acidez natural da Bairrada.
  • Textura: a porosidade da talha ajuda a polir os taninos por vezes rústicos da casta Baga, resultando num vinho com uma textura aveludada, mas com a estrutura vertical típica da região.

3. O processo de vinificação na Malápio

Na Adega Malápio, o vinho de talha respeita as regras ancestrais, mas beneficia da higiene e do controlo técnico moderno:

  • O 'Pez': a talha é revestida interiormente com pez (uma mistura de resina de pinheiro, cera de abelha) para garantir a impermeabilização.
  • Contacto com as massas: o vinho fermenta e estagia com o 'mãe', curtimenta em contacto com as películas com as leveduras indígenas (naturais das próprias uvas). É adicionado um 'pé-de cuba', preparado previamente com uvas sãs e bem maduras, para estimular o arranque da fermentação, que se inicia ao fim de 36 horas. Depois das massas subirem à superfície eram mergulhadas, com um pé de galo, duas vezes ao dia. quando a fermentação acaba, ao fim de 15 dias, deixa-se assentar a manta no fundo do pote.
  • O filtro natural: na hora da trasfega, as massas que se depositaram no fundo da talha servem de filtro natural, resultando num vinho de brilho autêntico e intervenção mínima. O vinho ficou preparado para passar a limpo (trasfega para outra talha) e fazer o estágio e a cura de inverno, tendo o cuidado de se lhe juntar o vinho da prensagem das massas.
  • Sem intervenção de laboratório: engarrafado sem recorrer a colagem, clarificação, controlo de temperaturas, nem filtração. São preservados os métodos ancestrais, utilizando uma quantidade mínima de sulfuroso, criando um vinho natural e de mínima intervenção.

4. A diferenciação: frescura vs. concentração

Enquanto muitos vinhos de talha alentejanos são quentes e concentrados, o vinho de talha da Bairrada da Malápio destaca-se pela sua frescura atlântica. A acidez vibrante das castas da Bairrada (como a Baga nos tintos ou o Bical e Maria Gomes nos brancos) impede que o vinho se torne pesado, criando um perfil gastronómico muito versátil.

5. Um vinho de 'Vinha e Mãos'

Este vinho é a expressão máxima da agricultura sustentável e regenerativa que discutimos anteriormente. Como não há passagem por barricas novas de carvalho, não há 'maquilhagem'. O que está na garrafa é o reflexo direto:

1. do estado do solo naquele ano.

2. do equilíbrio da biodiversidade da vinha.

3. do manuseamento manual e cuidadoso que evita a oxidação excessiva.

Em suma, o vinho de talha na Adega Malápio não é apenas uma curiosidade histórica; é uma ferramenta técnica para expressar o terroir da Bairrada de forma nua e crua, unindo a resistência das vinhas centenárias à nobreza da cerâmica.

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