Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

Produção sustentável de pequenos frutos: boas práticas no perímetro de rega do Mira

Pedro B. Oliveira e José Silvestre, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV)

18/02/2026

As culturas protegidas no Aproveitamento Hidroagrícola do Mira têm assumido uma relevância económica significativa, com uma forte componente destinada à exportação. Contudo, esta região depara-se frequentemente com problemas de escassez de água, pelo que importa demonstrar boas práticas no uso da água. Estas boas práticas são consideradas no referencial SustainGrowth, que apresenta um conjunto de indicadores qualitativos e quantitativos para o uso da água, contribuindo para tornar este setor mais sustentável e responsável em termos ambientais. Neste trabalho ilustra-se o potencial das culturas de pequenos frutos em substrato para o uso eficiente da água.

Imagen

Introdução

Os pequenos frutos em Portugal são um dos grupos mais dinâmicos da fruticultura nacional, representando o maior valor de exportações deste setor. A sua produção teve um aumento exponencial a partir de 2010, atingindo uma área de 4524 hectares em 2024, no conjunto da amora, framboesa, mirtilo e groselha (GPP, 2025). A produção de mirtilo encontra-se localizada na região norte do país com a produção de framboesa a centrar-se principalmente na região do Mira. A framboesa nesta região, com os seus 810 hectares (recenseamento geral agrícola de 2019), representava nesse ano 59,6 % da área total do país. A produção do mirtilo representava apenas 4,4% da área nacional. Não existindo valores para a área atual de framboesa na região do Mira, é possível estimar a área produtiva de pequenos frutos em cerca de mil hectares.

Até 2000 a produção de framboesa, amora e mirtilo era realizada principalmente no solo, mas com a evolução das tecnologias de produção a cultura progrediu para a produção em substrato (Oliveira et al. 2005). Esta alteração radical da cultura teve como principal razão o melhor desempenho da cultura em substrato, a utilização mais racional dos fatores de produção água e fertilizantes e, sobretudo, a sua adequação à manipulação do ciclo vegetativo das plantas com redução de custos de arranque das plantas e respetiva mão de obra. É com a cultura em substrato que se impulsiona a produção de framboesas no sistema long-cane.

A região do Mira tem atravessado um período de escassez hídrica que levou nos últimos anos a uma restrição do fornecimento de água por parte da Associação de Beneficiários do Mira. No entanto, os produtores têm conseguido reduzir os consumos de água, uma vez que a produção em substrato permite o seu uso eficiente, sendo uma resposta eficaz à escassez hídrica. Atualmente é possível estimar que 80% da área de produção de framboesa e mirtilo na região do Mira é realizada em substrato.

Hidroponia e produção de pequenos frutos

A Hidroponia pode ser definida como a prática de fazer crescer plantas numa solução nutritiva com ou sem um substrato que as suporte. Divide-se hidroponia em dois tipos: produção em solução nutritiva e produção em substrato. Existem várias técnicas de produção em solução nutritiva, desde a NFT (nutrient film technique), em que as plantas crescem num filme fino de solução nutritiva, DWC (deep water culture), em que as plantas flutuam na solução nutritiva e aeroponia, em que as raízes das plantas ficam suspensas no ar. Já a produção em substrato é efetuada num número grande de meios sólidos que permitem o correto desenvolvimento das raízes. Estes meios sólidos podem ser lã de rocha, turfas, areia, perlite, vermiculite, casca de arroz, fibra de coco, etc. No caso dos pequenos frutos utilizam-se misturas de diversos compostos vegetais ou apenas fibra de coco (Oliveira et al., 2016; Palha et al.2012, Parente et al., 2013; Pinto et al., 2017).

As tecnologias de produção de framboesa e mirtilo encontram-se bem definidas em Oliveira (2021a, 2021b). A produção de framboesas pode ser realizada em lançamentos do ano com cultivares remontantes e em lançamentos de segundo ano com cultivares não remontantes. Durante mais de dez anos (1990-2000) foram realizados ensaios de datas e intensidades de corte dos lançamentos do ano para produção tardia e ensaios de quebra de dormência com frio artificial para a produção antecipada, pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), em Odemira. Surgiram, assim, as diferentes técnicas hoje aplicadas em todo o mundo. Com o início da produção em substrato toda a manipulação do ciclo vegetativo das plantas ficou mais facilitada, permitindo o transporte das plantas para as câmaras frigoríficas e posterior plantação, dando origem à técnica hoje denominada por produção em long-cane (Figura 1 e 2).

Figura 1 – Representação esquemática das diferentes técnicas de produção de framboesas com lançamentos do ano e de segundo ano...
Figura 1 – Representação esquemática das diferentes técnicas de produção de framboesas com lançamentos do ano e de segundo ano.
Figura 2 - Produção de morango em substrato (Foto: Pedro B. oliveira, INIAV)

Figura 2 - Produção de morango em substrato (Foto: Pedro B. oliveira, INIAV).

Figura 3 - Produção de framboesa em substrato (Foto: Pedro B. oliveira, INIAV)

Figura 3 - Produção de framboesa em substrato (Foto: Pedro B. oliveira, INIAV).

A produção de mirtilos pratica-se maioritariamente no solo, mas o cultivo em substrato tem aumentado em todo o país, fundamentalmente devido à facilidade na obtenção de melhores condições de crescimento que este proporciona às plantas de mirtilo uma vez que as plantas de mirtilo possuem um sistema radicular muito denso e superficial, com raízes muito finas, sensíveis ao encharcamento e à falta de água.

Ao contrário do que se verifica com a produção de framboesas em Portugal, a produção de mirtilos é marcadamente sazonal, não sendo ainda possível produzir durante todo o ano. A produção temporã de mirtilos baseia-se fundamentalmente nas cultivares de mirtilo sem ou com baixas necessidades em frio (mirtilos do tipo Southern Highbush) e a produção a partir do mês de junho baseia-se em cultivares com médias necessidades em frio, (mirtilos do tipo Northern Highbush e Rabbiteye) (Figura 4 e 5).

Figura 4 - Representação esquemática das épocas de produção dos diferentes tipos de mirtilo produzidos na região Norte e Sul de Portugal...

Figura 4 - Representação esquemática das épocas de produção dos diferentes tipos de mirtilo produzidos na região Norte e Sul de Portugal.

Figura 5 – Produção de mirtilo em substrato permite a redução das dotações de rega sem afetar o desempenho da cultura (Foto: Pedro B...

Figura 5 – Produção de mirtilo em substrato permite a redução das dotações de rega sem afetar o desempenho da cultura (Foto: Pedro B. oliveira, INIAV).

O substrato mais utilizado na produção de framboesa e mirtilo é a fibra de coco, mas pode variar de acordo com o aconselhamento técnico das explorações. Em ensaios realizados no INIAV foram obtidos excelentes resultados com uma mistura de fibra de coco, casca de pinheiro e perlite, em que ao segundo ano se obtiveram produções médias de 1,4 Kg por planta (Pinto et al., 2017). É hoje aceite que a utilização de substratos na produção de pequenos frutos é muito vantajosa uma vez que permite a otimização da água de rega, otimização no controlo nutricional das plantas com obtenção de uma maior eficiência produtiva permitindo a mitigação de riscos ambientais.

Boas práticas de gestão da água

A produção sustentável de pequenos frutos deve basear-se em boas práticas de gestão da água com uma correta monitorização e contínuo ajuste da rega através de programadores que afinam a rega em função dos dados de sensores de humidade, temperatura e registo do défice de pressão de vapor. A leitura da condutividade do substrato e do valor das drenagens tem que ser realizada diariamente de preferência duas vezes ao dia. Os planos de fertilização são de extrema importância, normalmente “segredo” de cada exploração agrícola, mas as estratégias de (ferti)rega têm que ter em conta as necessidades de nutrição da cultura, gestão da solução nutritiva ao longo do ciclo produtivo (fenologia) bem como da qualidade inicial da água de rega. Muito importante para a sustentabilidade ambiental é a redução da fração de drenagem sendo de privilegiar a utilização de circuitos fechados com reutilização de drenados.

Nos dois últimos anos foram realizados estudos de redução de rega no Centro de Investigação para a Sustentabilidade (CIS), uma parceria do INIAV com a Lusomorango, Maravilha Farms e Driscolls, em que foi possível demonstrar que as plantas da variedade Driscoll’s® ReynaTM tiveram um desenvolvimento normal com uma redução de 25% no volume de rega, apresentaram a melhor qualidade dos frutos sem perda de calibre e sem diferenças da produtividade comercializável em relação ao tratamento de rega controlo (Pinto, 2024).

Diversos autores referem as necessidades em água para as framboesas em 4 mil m3 por hectare, mas este valor é muito variável com a tecnologia de produção utilizada. Assim, este valor pode ser aproximado para uma produção em lançamentos do ano em que é necessário “fazer crescer” a planta até á fase produtiva, já a produção no sistema long-cane utilizará metade desse valor uma vez que o lançamento já se encontra totalmente formado e apenas é necessário o alongamento dos laterais e a frutificação. Nos ensaios realizados em Odemira foi possível reduzir, na produção em lançamentos do ano, esse valor para cerca de 3000 m3/ha sem perdas de produção e qualidade. Estimando uma produção de 20 toneladas por hectare podemos estimar as necessidades da framboesa em 150L por kilo de fruta produzida, valores semelhantes ao de outros estudos.

Se na produção de framboesas os resultados obtidos nos diversos ensaios são relativamente constantes, no caso da produção de mirtilos as discrepâncias são enormes. As diferenças devem-se fundamentalmente às condições de ensaio podendo variar de 1500 a 9 mil m3/ha quando a cultura é efetuada em substrato ou no solo. Oliveira e Silva (2016; 2017) efetuaram um ensaio de produção de mirtilos em substrato, durante quatro anos com três cultivares de mirtilo, e verificaram que o consumo de água e a produtividade das plantas varia muito em função da cultivar, substrato, capacidade dos vasos, compasso de plantação, poda de frutificação, etc. Assim, generalizações do uso de água em mirtilos devem ser evitadas.

Tendo em conta a diversidade de tecnologias de produção não é possível indicar valores de fertilizantes a utilizar por hectare. Em termos muito genéricos é referido que para uma produção correta de mirtilos e framboesas é necessária uma aplicação por hectare entre 40 e 150 kg de azoto, 40 e70 kg de fósforo e 80–120 kg de potássio K. Estes intervalos tão grandes refletem a diversidade de condições de cultura possíveis.

Num segundo ano de ensaios, realizados no CIS foi possível concluir que duas estratégias de redução do consumo de água no cultivo de framboesa são viáveis, redução ou reutilização. Tanto a redução de 23% na dotação total de rega como a substituição de 30% da solução nutritiva por drenados permitiram manter o crescimento e a produção, tendo ambas um impacto significativo ao nível da sustentabilidade na produção de framboesa. Estas estratégias contribuem para a redução do consumo de um recurso escasso, a água, o decréscimo do uso de adubos químicos e a diminuição do risco de contaminação das “massas de água” naturais com as águas de drenagem (Gomes, 2025).

Conclusão

Sendo a escassez de recursos hídricos uma das limitações principais à expansão da cultura dos pequenos frutos no aproveitamento hidroagrícola do Mira, demonstrou-se que a produção em substrato foi determinante para a redução dos consumos de água. Por outro lado, uma rega de precisão tem potencial para reduzir os consumos de água em 25% e, a incorporação de drenados na água de rega (incorporação até 30% em volume), permite diversificar as fontes de água sem consequências na produção, reduzindo a pressão no perímetro de rega, ao mesmo tempo que permite uma maior eficiência de utilização dos nutrientes e minimiza a lixiviação dos mesmos, com impacto significativo na sustentabilidade destas culturas. Estando estes temas no referencial SustainGrowth, este pode ser um motor de melhoria contínua através do benchmarking, apoiando a transição para modelos de produção mais sustentáveis.

Bibliografia

Gomes, J., Ribeiro, H. e Oliveira, P.B. (2025). Estudo da redução da dotação de rega e do reaproveitamento da água de drenagem, no cultivo de framboesa em substrato. Actas Portuguesas de Horticultura (aceite para publicação).

GPP, (2025). https://www.gpp.pt/index.php/produtos/produtos

Oliveira, P.B. e Silva, A. R. (2016). Resultados de um ensaio de produção precoce de mirtilo em substrato. Revista Pequenos Frutos 15: 16-19

Oliveira, P.B. e Silva, A. R. (2017). Resultados de quatro anos de produção de mirtilo em cultura protegida. Revista Pequenos Frutos 16: 5-7.

Oliveira, P.B. (2021a). Manual de boas práticas de fruticultura. 7º fasciculo - Framboesa. Frutas Legumes e Flores 215, 5p.

Oliveira, P.B. (2021b). Manual de boas práticas de fruticultura. 8º fasciculo - Mirtilos. Frutas Legumes e Flores 216, 7p.

Oliveira, P.B., Baptista, M.C., Fonseca, L.L., Palha, M.G., Sousa, M.B., Curado, T.C. e Campo, J.L. (2005). Produção intensiva de morangos e framboesas em cultura no solo e em hidroponia. Actas II Colóquio Nacional da Produção de Morango e Outros Pequenos Frutos, 209-212.

Oliveira, P. B., Sousa, E., Serrano, C. and Oliveira, C. M. (2016). Effect of cold storage on growth, yield and carbohydrate reserves of two raspberry cultivars. Acta Hortic. 1133: 269-274.

Palha, M.G., Campo, J.L. and Oliveira, P.B. (2012). Optimizing a High-Density Soilless Culture System for Strawberry Production. Acta Hort. 926: 503-507.

Parente, C.O., Oliveira, P.B. e Oliveira, C.M. (2013). A produção precoce e tardia de mirtilos em substrato. Revista Pequenos Frutos 5: 20-22.

Pinto, R.M., Mota, M., Oliveira, C.M. e Oliveira, P.B. (2017). Effect of substrate type and pot size on blueberry growth and yield: first year results. Acta Hortic. 1180: 517-522.

Pinto, R.M. (2024). Centro de investigação para a sustentabilidade – Primeiro ano de ensaios. Agrotec 51: 30-31.

REVISTAS

InvestBraga

NEWSLETTERS

  • Newsletter Agriterra

    16/02/2026

  • Newsletter Agriterra

    09/02/2026

Subscrever gratuitamente a Newsletter - Ver exemplo

Password

Marcar todos

Autorizo o envio de newsletters e informações de interempresas.net

Autorizo o envio de comunicações de terceiros via interempresas.net

Li e aceito as condições do Aviso legal e da Política de Proteção de Dados

Responsable: Interempresas Media, S.L.U. Finalidades: Assinatura da(s) nossa(s) newsletter(s). Gerenciamento de contas de usuários. Envio de e-mails relacionados a ele ou relacionados a interesses semelhantes ou associados.Conservação: durante o relacionamento com você, ou enquanto for necessário para realizar os propósitos especificados. Atribuição: Os dados podem ser transferidos para outras empresas do grupo por motivos de gestão interna. Derechos: Acceso, rectificación, oposición, supresión, portabilidad, limitación del tratatamiento y decisiones automatizadas: entre em contato com nosso DPO. Si considera que el tratamiento no se ajusta a la normativa vigente, puede presentar reclamación ante la AEPD. Mais informação: Política de Proteção de Dados

agriterra.pt

Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa

Estatuto Editorial