A Lusomorango tem sido protagonista na construção de uma cadeia de valor que alia produtividade, qualidade e coesão territorial. A eficiência operacional, combinada com a inovação tecnológica, constitui uma oportunidade para reduzir custos, aumentar rendimentos e reforçar a resiliência do setor frente a choques climáticos, mercadológicos ou logísticos. O setor dos pequenos frutos tem sido percursor tecnológico, implementando modelos de agricultura de precisão que estão a construir um modelo produtivo mais sustentável.
Joel Vasconcelos, diretor geral da Lusomorango.
Em 2005, um grupo de produtores do Sudoeste Alentejano e do Ribatejo teve a visão de que estas regiões, pelas suas características, poderiam ser um centro de produção de excelência de pequenos frutos – de Portugal para o mundo. Vinte anos passados, a aposta revelou-se visionária. O crescimento da atividade da Lusomorango, hoje a maior organização de produtores de frutas e legumes (em volume de negócios), tem acontecido proporcionalmente à modernização da agricultura portuguesa, assente em modelos produtivos mais inovadores, competitivos e sustentáveis. Desde a sua criação, a Lusomorango – que se dedica à produção de framboesa, amora e mirtilo, maioritariamente na região de Odemira, mas também no Algarve e no Ribatejo – tem sido protagonista na construção de uma cadeia de valor que alia produtividade, qualidade e coesão territorial, mostrando que é possível conciliar desenvolvimento económico com responsabilidade ambiental e social.
Nas últimas duas décadas, a Lusomorango consolidou-se como referência no setor dos pequenos frutos, transformando a região de Odemira numa potência exportadora. De acordo com o estudo ‘O impacto económico dos pequenos frutos e da agricultura no Perímetro de Rega do Mira’, da EY Parthenon, o valor acrescentado bruto (VAB) da produção nacional de pequenos frutos atingiu 916 milhões de euros em 2023, dos quais 170,2 milhões correspondem aos produtores da Lusomorango, que representam 18,5% do total nacional. Estes números refletem não só a dimensão económica do setor, mas também o seu impacto social. O Perímetro de Rega do Mira gera, anualmente, uma média de 15 mil postos de trabalho, diretos e indiretos, sendo uma parte significativa no concelho de Odemira, contribuindo para a fixação de população em territórios de baixa densidade que enfrentam o desafio da desertificação.
O ano de 2025 confirma a resiliência do setor dos pequenos frutos em Portugal e em particular no Sudoeste Alentejano, apesar do contexto exigente, marcado pela escassez hídrica e por fenómenos climáticos adversos. A Lusomorango tem mantido níveis de exportação superiores a 94% do volume produzido, reforçando a relevância das framboesas, mirtilos e amoras nacionais nos mercados internacionais.
A internacionalização é, pois, um eixo estratégico para a nossa organização. Para manter e expandir a presença global, temos investido em qualidade e sustentabilidade, logística avançada e rastreabilidade digital. Estes investimentos garantem não apenas a conformidade com exigências rigorosas de retalho europeu, mas também a abertura a novos mercados emergentes no Médio Oriente. Esta diversificação geográfica permite reduzir riscos e consolidar a imagem de Portugal como referência de excelência na produção de pequenos frutos.
Apesar do caminho de crescimento e sustentabilidade que temos percorrido, o setor não é imune aos desafios estruturais prementes que a região enfrenta – nomeadamente as restrições impostas à gestão da água. A escassez hídrica no Sudoeste Alentejano, agravada por períodos prolongados de seca, afeta de forma relevante o potencial económico do setor, segundo estimativas da EY. Este cenário torna necessário que os produtores continuem a implementar sistemas de rega cada vez mais inteligentes, mas, acima de tudo, demonstra a urgência da concretização da modernização do Perímetro de Rega do Mira e a construção da ligação da Barragem de Santa Clara ao Alqueva – projetos previstos na estratégia nacional ‘Água que Une’, anunciada já no final do primeiro trimestre pelo primeiro ministro, e que teima em não sair do PowerPoint e chegar ao terreno.
Tão importante como a concretização destes projetos é garantir a desburocratização de processos administrativos, nomeadamente dos organismos descentralizados do estado, em particular do ICNF IP, e simplificar a legislação relativa ao licenciamento, para que os fluxos de investimento dos produtores não sejam bloqueados e asfixiados, mas sim apoiados e incentivados. O setor dos pequenos frutos tem sido percursor tecnológico, implementando modelos de agricultura de precisão que estão a construir um modelo produtivo mais sustentável: hoje, novas tecnologias como sensores de humidade, a monitorização dos substratos, sistemas de rega com captação de águas pluviais e reaproveitamento hídrico e análise de dados preditivos permitem otimizar recursos e reduzir desperdícios, aumentar a produtividade e responder aos desafios ambientais. Investir em tecnologias digitais e plataformas de gestão de dados é, portanto, não apenas uma oportunidade, mas uma necessidade para garantir competitividade e eficiência. Importa que se simplifiquem processos e se deixe os produtores fazerem mais e melhor.
Ao longo destas duas décadas de trabalho, a Lusomorango tem adotado práticas que promovem a biodiversidade local, aproveitam resíduos orgânicos, aplicam princípios de agricultura regenerativa e reduzem o uso de fitofármacos. Estas práticas permitem não apenas melhorar a qualidade e o sabor dos frutos que produzimos, mas também gerar valor agregado no mercado, dado o crescente interesse dos consumidores por produtos rastreáveis e responsáveis.
A eficiência operacional, combinada com a inovação tecnológica, constitui uma oportunidade para reduzir custos, aumentar rendimentos e reforçar a resiliência do setor frente a choques climáticos, mercadológicos ou logísticos.
Um dos eixos impulsionadores do caminho de crescimento da Lusomorango é o Centro de Investigação para a Sustentabilidade, localizado no Polo de Inovação da Fataca, em Odemira, e criado em 2023. Resultante de uma parceria entre a Lusomorango, o INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a Driscoll’s e a Maravilha Farms, este é o primeiro laboratório em Portugal dedicado à investigação aplicada à produção agrícola sustentável de pequenos frutos.
Distinguido com o Prémio Sustentabilidade 2025 do Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN), tem desempenhado um papel fulcral no desenvolvimento de práticas inovadoras de cultivo, métodos de rega mais eficientes, soluções de monitorização de solo e plantas e estratégias de produção com menor impacto ambiental. A presença de investigadores, técnicos e produtores neste mesmo espaço tem permitido uma transferência de conhecimento rápida e aplicada, convertendo investigação em resultados concretos no campo. Com a experimentação e utilização de tecnologia de ponta, o Centro é um catalisador de inovação que fortalece toda a cadeia produtiva. Além disso, contribui também para formação contínua, capacitando profissionais da área, promovendo boas práticas e estimulando a adoção de soluções de agricultura sustentável. Este modelo de investigação aplicada serve ainda de referência para outras regiões e culturas, contribuindo para que Portugal evolua na inovação agrícola e sustentabilidade.
Olhando para os próximos 20 anos, o setor dos pequenos frutos enfrenta um cenário desafiante, mas repleto de oportunidades. Mas o caderno de encargos não é pequeno: é necessário simplificar processos administrativos e regulatórios, para reduzir burocracia e incentivar investimento e inovação; investir na modernização e em novas infraestruturas de água e tecnologias de irrigação inteligente, garantindo segurança hídrica e eficiência no uso de recursos; potenciar a internacionalização e o acesso a novos mercados, através de certificações, logística avançada e rastreabilidade digital; apostar em inovação, sustentabilidade e agricultura de precisão, como pilares para aumentar produtividade, reduzir impactos ambientais e criar valor; fortalecer centros de investigação aplicados, como o de Odemira, para assegurar que ciência, tecnologia e prática agrícola caminham juntas.
A Lusomorango demonstrou, ao longo de 20 anos, que é possível conciliar crescimento económico, inovação e responsabilidade social e ambiental. O futuro exigirá visão estratégica, colaboração entre produtores, investigadores e entidades públicas. E, sobretudo, um compromisso profundo de todos estes stakeholders com a sustentabilidade. A Lusomorango aceitou este desafio em 2005. Prestes a entrar em 2026, seria importante que os decisores e responsáveis políticos dessem o mesmo passo.