Portugal tem cerca de 300 castas autóctones. Algumas delas quase desapareceram. Pelo que impera a pergunta: Qual a importância das castas autóctones? E vale a pena investir na recuperação de castas que quase desapareceram?
A lista de castas autóctones em Portugal alcança quase a fasquia das três centenas. No entanto muitas delas têm uma produção residual ou quase inexistente. Nas últimas décadas os produtores optaram por concentrar esforços em castas que sejam mais fáceis de trabalhar, que tenham uma maior produtividade ou se encaixem no gosto do consumidor.
No entanto isto significa não só perca de diversidade como de todo um historial que, depois de extinto, será difícil recuperar. Felizmente, por um lado, há um banco de dados que armazena exemplares destas castas, a Coleção Ampelográfica Nacional (CAN), pertencente ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), localizada em Dois Portos. E, por outro, recentemente vários produtores encetaram ações de recuperação de algumas castas.
O exemplo mais recente foi anunciado a 10 de março, pela Goparity e pela Azores Wine Company, que anunciaram uma campanha de financiamento com o objetivo de angariar 275,5 mil euros, a utilizar na recuperação das castas autóctones dos Açores, tais como o Terrantez do Pico – casta que há poucos anos estava em vias de extinção –, o Arinto dos Açores, o Verdelho, o Saborinho, o Bastardo, o Malvarisco e o Boal. Uma iniciativa explicada por António Maçanita, fundador da Azores Wine Company: "nos Açores, todos os desafios têm um grau de dificuldade acrescido! Na ilha do Pico a viticultura é uma das mais exigentes do planeta. As vinhas crescem nas fendas da rocha vulcânica, por entre muros de pedra, num solo de lava que desafia a própria definição de solo, sujeitas a um clima húmido propício à propagação de doenças e bem próximas do mar, o que por vezes pode queimar as culturas. Mas é nas dificuldades que o Homem se supera, e destas vinhas nascem vinhos extraordinários, de classe mundial. A nossa missão é resgatar um passado glorioso dos vinhos do Pico, e trazer de volta castas quase desaparecidas. A última década trouxe muito reconhecimento aos vinhos dos Açores, mas há ainda imenso por fazer. Queremos continuar a contribuir para uma transformação social e económica, devolvendo à ilha do Pico notoriedade a par da preservação de uma Paisagem e Cultura da Vinha e do Vinho que é Património Mundial da Humanidade”.
Sobre a importância de preservar as castas autóctones, Jorge Cunha, investigador do INIAV, refere, no seu artigo 'A identidade das castas de videira portuguesas aptas à produção de vinho no contexto ibérico e europeu’ que “a correta identificação das castas é imprescindível à sua preservação, à valorização do seu potencial produtivo e qualitativo e à sua multiplicação, de forma a perpetuar a sustentabilidade da Vitis vinifera L. às gerações futuras”.
O investigador acrescenta que “a riqueza do património vitícola português tem vindo a mostrar-se como um fator fundamental na identidade e na afirmação dos vinhos portugueses”. E a verdade é que as gerações mais recentes, ao privilegiarem vinhos monovarietais em detrimento de blends, fazem com que as várias castas, individualmente, sejam valorizadas.
E isto tem levado, por um lado, a uma maior identificação das castas, mas também à sua recuperação. Algo que está a ser feito um pouco por todo o país. A região dos Vinhos Verdes, por exemplo, está a fazer, há já alguns anos, esse trabalho através da Estação Vitivinícola Amândio Galhano (EVAG), organismo da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV).
A Estação Vitivinícola Amândio Galhano, pertencente à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, está a recuperar 14 castas autóctones da Região dos Vinhos Verdes que se encontram em vias de extinção. O desaparecimento de algumas castas tem-se agravado nas últimas décadas sobretudo devido à produção contínua e massificada de castas específicas, em detrimento da exploração vitivinícola em pequenas propriedades. Segundo a instituição, um dos seus objetivos é estudar em profundidade as castas ameaçadas de forma a aumentar a biodiversidade dos vinhos verdes.
A nível individual há casos bem conhecidos de produtores como a Real Companhia Velha (RCV), a Symington e o Esporão que publicamente divulgam as suas ações de recuperação de castas. A Symington, por exemplo, tem na Quinta do Ataíde, no Douro, uma ‘espécie’ de laboratório ao ar livre. Na quinta a empresa tem 53 das mais de 100 castas autóctones da região, com 200 pés de videira cada, em dois hectares de vinha. Num outro espaço – a Quinta do Bonfim – uma nova biblioteca com 30 castas. Em 2020, numa entrevista à Lusa, Fernando Alves, responsável pela área de desenvolvimento e investigação da Symington, explicava que “esta coleção visa preservar o património genético que temos na Região Demarcada do Douro”, acrescentando que o objetivo destas 'bibliotecas' é ampliar o conhecimento sobre castas autóctones do Douro e de outras de âmbito nacional. As mudanças climáticas tornaram este trabalho de investigação “particularmente relevante”, já que aqui estão também a ser investigadas quais as variedades que são mais resistentes ao calor e à seca.
Quanto à Real Companhia Velha.... o seu trabalho de recuperação de castas tem mais de 20 anos. Um dos resultados desse trabalho foi divulgado há poucos anos com o lançamento da gama Séries, uma linha experimental que recuperou castas nativas, muitas desconhecidas e grande parte já em extinção. Consiste na apresentação de pequenos projetos vínicos – diga-se, poucas garrafas. No lançamento da gama, em 2018, a empresa apresentou seis monocastas DOC Douro. Dois brancos, ambos de 2016 – Donzelinho Branco e Gouveio – e quatro tintos – Tinto Cão (2015), Malvasia Preta (2015), Cornifesto (2015) e Bastardo (2014).
“A preservação da biodiversidade das castas da videira tem por objetivo prospetar e conservar amostras estatisticamente representativas da variabilidade genética intravarietal das castas autóctones regionais. A par, pretende-se evitar a erosão do património genético acumulado ao longo de vários séculos”, pode ler-se no site da ADVID – Cluster da Vinha e do Vinho. A instituição disponibiliza todo um conjunto de papers onde se mostra a importância da conservação da biodiversidade da vitis vinífera em Portugal. No artigo ‘Conservar a biodiversidade da Vitis vinífera em Portugal: um suporte estratégico da exportação dos vinhos portugueses’, de António Rocha Graça e divulgado pelo ADVID, o autor aponta que “Portugal possui um património invejável em termos de castas de videira, apenas igualado na Europa pela Itália, apesar de esta última possuir menos castas exclusivas do que Portugal”. No artigo pode ler-se que as castas nativas devem ser encaradas como um fator de inovação e que podem servir de diferenciação (e suporte estratégico) aquando da exportação dos vinhos portugueses.