Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

Setor acredita que é possível criar um Cluster português dos frutos secos em Portugal

Ana Clara12/07/2021

Um setor dos frutos secos forte e sustentável, que cresce com boas práticas agrícolas e centrado no uso eficiente da água. Este é o sentimento de vários especialistas que, a 6 de julho, em Beja, partilharam reflexões sobre o tema num seminário dedicado à fileira que cresce a bom ritmo em Portugal, com particular destaque na região de Alqueva, no Alentejo. Revista Agriterra foi media partner da iniciativa organizada pelo Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos (CNCFS), e que contou com o apoio da EDIA e da PortugalNuts.

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Mesa redonda debateu a gestão da Água no setor dos Frutos Secos.

A sessão de abertura esteve a cargo de Carlos Silva, presidente do CNCFS, criado em 2015, e que tem pautado a sua atividade "pela unidade proximidade e integração de todos os intervenientes da fileira, facilitando a experiência da investigação e da informação para a estrutura, desde a produção à comercialização e consumidores".

O responsável lembrou também que a missão do Centro passa também por ser "um agente facilitador de toda a fileira, dos diversos organismos nacionais e internacionais", salientando que "faz cada vez mais sentido que empresas e entidades de investigação, setor público local, produtores e organizações de produtores (OP's) façam parte do CNCFS e contribuam para o objetivo comum que passa pela melhoria produtiva da fileira dos frutos secos em Portugal". 

“Basta olhar para esta plateia e percebemos todos as motivações que nos trouxeram aqui hoje para perceber a pujança e o potencial da amêndoa e da noz no Alentejo e, em particular, na área de regadio do Alqueva. Se junto dos consumidores, os frutos secos são considerados um alimento seguro e saudável, é muito importante extrapolar esta imagem para a produção“ e ”passar para a opinião pública e para a opinião publicada a mensagem que produzimos com inovação e tecnologia", disse Carlos Silva. “Não há amendoais intensivos ou superintensivos, há culturas modernas em que se alia a eficiência à sustentabilidade”, avisou.

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Carlos Silva, presidente do CNCFS.

A primeira parte do seminário contou com as intervenções de três especialistas no setor da amêndoa e dos frutos secos. A primeira oradora, Maria José Rubio Cabeta, do Centro de Investigação e Tecnologia Agroalimentar de Aragão (CITA), abordou a ‘arquitetura das variedades de amêndoa’. Seguiu-se Albino Bento, do CNCFS e do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), que fez uma retrospetiva das pragas e doenças que atingem a cultura da amêndoa em Portugal, detalhando e precisando as consequências para quem produz.

Já Elsa Ramalhosa, docente e investigadora do IPB, e a terceira oradora na primeira parte da sessão, abordou o tema dos ‘frutos secos do Alentejo’ do ponto de vista do contributo da ciência para a sustentabilidade do setor, realçando a importância deste segmento ao nível das suas aplicações, desde o agroalimentar à comercialização.

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Debate no final do primeiro painel de oradores. Da esq. para a dir.: Carlos Silva (CNCFS), Maria José Rubio Cabeta (CITA), Albino Bento (IPB/CNCSF) e Elsa Ramalhosa (IPB). 

“Frutos secos com uma evolução extraordinária”

A segunda parte deste seminário contou com uma Mesa Redonda que teve como objetivo debater e refletir sobre os desafios e perspetivas da gestão da água no setor dos frutos secos.

Nela participaram José Pedro Salema, presidente do Conselho de Administração da EDIA, Filipa Saldanha, Diretora-Adjunta do Programa Sustentabilidade da Gulbenkian, e Gonçalo Morais Tristão, presidente do Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR). A moderação esteve a cargo de Ana Clara, jornalista e diretora da Revista Agriterra, media partner deste seminário.

José Pedro Salema, da EDIA, começou por recordar que os frutos secos “têm tido uma evolução extraordinária e muito rápida. Em 2017, tínhamos 6000 hectares (ha) de frutos secos, este ano vamos com 18.329, 17.200 são amêndoa. Nos últimos cinco anos, a amêndoa passou de uma situação que não existia, para ser a segunda cultura em Alqueva, com a projeção de 17.000 ha, e com um ritmo que parece ser de crescimento nos próximos tempos”.

Admitiu, todavia, que esta mudança "preocupa a EDIA e os agricultores“ principalmente ”porque vem alterar o mix cultural que estava planeado. A maior parte dos pomares são muito recentes, sendo que a média de consumo que observámos no ano passado no amendoal foi de 2500 m3 por hectare (m3/ha). Preocupa-nos o facto de termos uma grande área numa cultura que gasta francamente mais do que a nossa média". 

José Pedro Salema refere que no plano de contingência, "desenhamos cenários de projeção de consumos, no sentido de analisar, com com esta realidade o que podemos ter nos próximos anos. O que sabemos hoje é que se houver um movimento de substituição de cultura de baixa dotação por de alta dotação estamos tranquilos. Claro, que se os olivais que existem em Alqueva forem arrancados para plantar nogueiras, é certo que não há água para todos", ironiza, lembrando que não é crível que isso aconteça.

Por isso, sublinha que "é preciso acautelar áreas que são servidas hoje fora das áreas servidas – os chamados regantes precários – que reclamam também eles direitos superiores, iguais às áreas comerciais". "Temos tentado dar resposta a todos estes problemas", garante. 

Recorde-se que a primeira fase de blocos de rega de Alqueva está concluída, sendo que na primeira fase, foram construídos 119 mil hectares, com a EDIA a explorar diretamente 108 mil hectares e, até ao final deste ano, mais dez mil novos hectares ficarão prontos para regar (em Évora, Viana do Alentejo e Cuba/Odivelas).

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Mesa Redonda. Da esq. para a dir.: Gonçalo Morais Tristão (COTR), Filipa Saldanha (Gulbenkian), José Pedro Salema (EDIA) e Ana Clara (Agriterra).

“Falta uma estratégia clara para a Água em Portugal”

Filipa Saldanha, que tem dedicado a sua carreira às questões da sustentabilidade, nomeadamente nas áreas de economia ambiental, economia do mar, desenvolvimento sustentável e soluções empresariais sustentáveis, realçou que no programa de Sustentabilidade da Gulbenkian, o objetivo é estimular o crescimento sustentável em várias áreas e indústrias.

Neste programa da Fundação, vincou, o grande objetivo “é promover o crescimento económico sustentável, e fazemo-lo através do combate às alterações climáticas, na valorização e proteção do oceano e no incentivo a práticas de produção e consumo mais sustentáveis”.

Recorde-se que o estudo ‘O Uso da Água em Portugal’, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian ao C-Lab (Consumer Intelligence Lab), focou-se no setor agrícola (o maior utilizador de água em Portugal), e resultou de um trabalho que envolveu conversas, visitas de campo e inquéritos a mais de 500 agricultores nacionais, a partir do qual foi elaborado um retrato dos desafios e das oportunidades, sentidas por quem está no terreno, no que se refere a um uso da água mais eficiente.

Para a responsável, a agricultura portuguesa tem dado passos importantes no uso eficiente e racional da água e “os agricultores, ao contrário do que muitos possam pensar, estão interessados em encontrar soluções que garantam essa eficiência”.

Filipa Saldanha afirma que na Fundação Calouste Gulbenkian "tentamos antecipar e detalhar a longo prazo. E logo aí diferenciamo-nos do Estado porque não estamos presos a timings políticos, tentando, ao mesmo tempo, não nos sobrepor ao papel do Estado". 

Neste caso da água e do agroalimentar, tratam-se de "duas temáticas com elevado impacto social e económico. E percebemos que há uma lacuna de conhecimento, em relação à água e ao agroalimentar, sendo que a agricultura é um setor que utiliza 75% da água, quisemos perceber onde estavam os constrangimentos e os desafios. Quando questionámos os agricultores, é claro, nas suas opiniões, que eles estão preocupados com o elevado consumo, e estão, de várias perspetivas, mais consciencializados do que consumidor para esta matéria". 

A responsável realça ainda que, com este estudo, "tentamos disseminar, de forma isenta e equilibrada, que os resultados pudessem servir planos de recuperação económica em Portugal. Porque claramente falta uma estratégia clara para a água em Portugal. Relativamente ao consumidor, nós (Gulbenkian) trabalhamos massas, e o que podemos fazer é ter determinadas alavancas, com marcas, indústria e grande distribuição que contactam diretamente com os consumidores e, através deles, fazer esse papel de consciencialização". 

Filipa Saldanha afiança ainda que "o consumidor não se move apenas por um certificado da Água, mas sim de forma mais alargada".

"Há muitos anos que os agricultores sabem o que é poupar água e usá-la de forma eficiente"

Questionado sobre o ponto em que está o setor agrícola nacional a fazer um uso sustentável do recurso Água, Gonçalo Morais Tristão, presidente do COTR, começa por lembrar que, "apesar de hoje o uso eficiente da água ser comum, é bom recordar que a agricultura tem este posicionamento sobre a água já há muito tempo. Há muitos anos que os agricultores sabem o que é poupar água e usá-la de forma eficiente".

Para contextualizar a evolução registada no País nesta matéria, o responsável salienta que, "em 1950, um agricultor alimentava 16 pessoas, em 2000, alimentava 200, e agora com os números mais recentes que a FAO e a ONU nos dão (a necessidade de um aumento da produção mundial de alimentos em mais 55%, até 2050), é mais que claro para todos a importância de gerir, de forma eficiente, este bem tão escasso como a água". 

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A pandemia ainda obrigou a algumas restrições de lotação da sala, mas os que não puderam estar em Beja, tiveram a oportunidade de assistir no Facebook da revista Agriterra. Reveja aqui o vídeo da sessão.

Prossegue, alertando que tal “só se consegue com o desenvolvimento tecnológico da agricultura e, para isso, muito conta a agricultura de regadio. E os números que temos em Portugal demonstram que esse desenvolvimento tem vindo a ocorrer ao longo dos anos”.

“Senão vejamos: em 1960, um agricultor gastava, em média, 16.000 m3/ha, em 2014, 6600 m3/ha, em 2020, temos dados de 3.000 e 4.000 m3/ha. Isto é uma grande evolução. Gastamos mais água? Claro que sim, mas porque temos mais culturas e produção, mais agricultura intensiva, mas em termos de eficiência, a agricultura portuguesa tem sido campeã”.

Mas os dados mostram-nos mais: no que toca à eficiência da rega, em 1999, 78% dos sistemas de rega eram por gravidade e apenas 22% por aspersão. "Nem sequer havia menção, naquela altura, à rega localizada. Em 2019, 18% são por gravidade, 28% por aspersão e 54% por rega localizada. Estes números provam, de facto, que o agricultor português tem sido muito eficiente ao longo dos anos", constata Gonçalo Morais Tristão.

Já o Recenseamento Agrícola de 2019, recorda, diz que na superfície regada, a nível nacional, “contamos com 566 mil hectares e, destes, 30% são rega com base em informação, dados agrometeorológicos, sondas e outro tipo de informação. Também por aqui se vê como o País melhorou muito neste aspeto”.

Para o responsável do COTR, "o fornecimento dos dados agrometeorológicos são muito importantes" e deixou um conselho aos agricultores: "é essencial auditarem e inspecionarem regularmente os seus sistemas de rega, de forma a não aumentar custos que ponham em causa a eficiência".

Recorde-se que o COTR tem como missão promover o desenvolvimento sustentável e competitivo da fileira do regadio, na vertente técnica, experimental, formativa, económica e ambiental, pela via da cooperação institucional com vista ao reforço da investigação, da inovação e da promoção das boas práticas agrícolas e da transferência e divulgação do conhecimento. Em julho de 2018, o COTR foi homologado como Centro de Competências para o Regadio Nacional.

Coube a Tiago Costa, Presidente da PortugaNuts/Associação para a Promoção dos Frutos Secos, o discurso de encerramento do seminário, lembrando, na sua intervenção, que "este é um setor promissor, sobretudo no Alqueva".

"A PortugalNuts é uma associação recente, nasceu este ano e é uma espécie de 'filha da pandemia', sendo que abrangemos neste momento cerca de 6.000 hectares de frutos secos, essencialmente amêndoa, muito localizada na zona de Alqueva".

Entre os objetivos da PortugalNuts, adiantou Tiago Costa, "tentaremos dar o mais possível o enquadramento legal, técnico e político que esta cultura necessita, criar ferramentas para gerir o risco, através de seguros, produtos fitofarmacêuticos e boas práticas agrícolas, entre elas, claro, o uso eficiente da água, com o intuito de fornecer condições para que esta cultura se desenvolva". 

"Acreditamos que é possível criar um Cluster português dos frutos secos. Há investidores estrangeiros muito interessados em apostar na cultura em Portugal, como sabem, e isso é algo que nos deixa muito esperançosos no futuro desta cultura. Além disso, consideramos ser essencial ter um plano de comunicação para o exterior diferente", disse, adiantando que, a partir de setembro deste ano, a PortugalNuts irá contar com uma nova dinâmica.

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Tiago Costa, Presidente da PortugalNuts, na sessão de encerramento do seminário.

A sessão foi transmitida online no Facebook da revista Agriterra. Reveja aqui o seminário.

Anefa: ExpoforestalCnema 04-12/06Agrogarante - Sociedade de Garantia Mútua, S.A.Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.Syngenta Crop Protection, Lda.

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