Informação profissional para a agricultura portuguesa

Fitossanidade

Novas tecnologias e biopesticidas são suporte para maior sustentabilidade

Emília Freire21/06/2021

Os objetivos europeus definidos pela estratégia ‘Do Prado ao Prato’exigem uma aplicação cada vez mais eficiente dos produtos para a proteção das plantas, só possível de atingir através do uso das novas tecnologias. A par desta aposta na agricultura de precisão, os biopesticidas são outra das vias que empresas e produtores têm para reduzir o impacto ambiental e cumprir as metas da UE.

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A estratégia ‘Do Prado ao Prato’, apresentada há cerca de um ano pela Comissão Europeia, propôs várias medidas para promover um sistema alimentar mais saudável e sustentável, enquadrando-se no Pacto Ecológico Europeu, assegurando que “a transição para um sistema alimentar sustentável terá benefícios para o ambiente, para a saúde e para a sociedade, proporcionando ganhos económicos e garantindo a subsistência de todos os setores intervenientes”.

Duas destas medidas são a redução do uso de pesticidas em 50% e o reforço da área de agricultura biológica em 25% até 2030. Por outro lado, pretende implementar ferramentas de inovação digital nas zonas rurais, através do acesso a banda larga rápida até 2025, reconhecendo o importante papel que as novas tecnologias desempenham na prossecução destes objetivos.

Nesse sentido, Ricardo Braga, professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), já tinha dito na edição Nº 1 da Agriterra (no artigo sobre a agricultura de precisão) que a academia, os agricultores e o Estado estavam a preparar uma Estratégia para a Digitalização da Agricultura Portuguesa, que permita uma generalização da agricultura de precisão (AP).

O especialista em AP adiantava que tinha sido criado “um grupo de trabalho no Gabinete de Planeamento e Políticas (GPP) [do Ministério da Agricultura] para preparar o Plano Estratégico da PAC e nomeadamente uma Estratégia para a Digitalização da Agricultura Portuguesa (com representantes da agricultura, da investigação e da distribuição), para definirmos como a nova PAC pode ter um contributo decisivo para a generalização da agricultura de precisão”.

Também a indústria de proteção das plantas reconhece o papel que a AP pode desempenhar. “A agricultura de precisão será o pilar para os desafios que enfrentamos”, defendeu o vice-presidente da Associação Nacional da Indústria para a Proteção das Plantas (Anipla), Paulo Lourenço, na sua apresentação dedicada às ‘Estratégias de luta fitossanitária e as novas tecnologias’, na sessão III – sobre ‘Os Desafios da Fitossanidade – do 1º Ciclo de Conferências ‘Desafios e Oportunidades no Setor Agrário’, realizado em dezembro de 2020 pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro no âmbito do Ano Internacional da Fitossanidade.

Paulo Lourenço afirmou que “as tecnologias associadas à Agricultura de Precisão serão cada vez mais adotadas pelos agricultores” que estas “ajudarão na redução dos custos, permitirão minimizar o impacto para o Homem e para o Ambiente e permitirão produzir ‘Mais com Menos’”, tornando os “sistemas de produção ainda mais transparentes”, entre outras vantagens. (Ver Imagem)

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“A agricultura de precisão será o pilar para os desafios que enfrentamos”, Paulo Lourenço

Indústria farmacêutica continuará a apostar em biopesticidas 

Já em meados de janeiro, a CropLife Europe – Associação Europeia de Proteção das Culturas e a Anipla divulgaram a sua posição sobre o relatório da Comissão da União Europeia do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar (ENVI) acerca da Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, assegurando que “a indústria fitofarmacêutica europeia assegura que está totalmente comprometida em desempenhar a sua parte”.

A indústria fitofarmacêutica europeia considera que a biodiversidade é uma questão urgente e importante na agricultura e garante que “está totalmente comprometida em desempenhar a sua parte no apoio à conservação e ajudar os agricultores com a regeneração e o aprimoramento da biodiversidade em paisagens agrícolas e não agrícolas”.

Dos pontos-chave que as associações destacam, faz parte a forte convicção que a inovação é uma parte fundamental da solução para combater o declínio da biodiversidade, lembrando que “as nossas empresas continuarão a investir em formas inovadoras de proteger as culturas e fomentar a agricultura sustentável com enormes investimentos em soluções que incluem produtos fitofarmacêuticos cada vez mais ecológicos, biopesticidas, inovação na criação de plantas e tecnologias de precisão”.

A CropLife Europe informava ainda que “adotou um conjunto de compromissos ambiciosos para apoiar o novo Pacto Ecológico Europeu (Green Deal), incluindo um investimento de mais de 14 biliões de euros em novas tecnologias e produtos mais sustentáveis até 2030, sendo quatro mil milhões na área dos biopesticidas.

Mas para que “isso aconteça de forma eficaz, dentro dos prazos que estão a ser discutidos, será necessário um ambiente regulamentar favorável e a adoção de medidas para garantir que os produtos, tecnologia e técnicas mais sustentáveis possam ser desenvolvidos e implementados. Isso garantirá que possamos fazer uma diferença significativa assim que possível”, alertavam a CropLife Europe e a Anipla.

Nesse âmbito, o vice-presidente da Anipla diz-nos que “a indústria solicita mais clarividência e ajuste das regras e da legislação à realidade dos produtos biopesticidas”, porque “não nos podemos esquecer que toda a legislação e avaliação está ‘arquitetada’ para químicos de síntese, inclusivamente os técnicos que fazem as avaliações também estão ‘parametrizados’ para os químicos de síntese, por exemplo em termos de eficácia não é expectável que um biopesticida tenha o mesmo nível que um químico de síntese, o técnico quando faz a avaliação tem de estar sensível para esta situação”, acrescenta.

Há, por isso, “um caminho a percorrer por todos os elementos envolvidos, desde a indústria aos serviços oficiais e às entidades que regulamentam”, adianta.

Biopesticidas

Segundo o responsável da Anipla e também da BASF em Portugal, de forma generalista, os biopesticidas podem ser divididos nas seguintes categorias:

• Macrorganismos – insetos, nemátodos predadores de espécies fitófagas (estes organismos não têm enquadramento no Regulamento CE 1107/2009 de 21 de outubro);

• Microrganismos – bactérias, fungos e vírus que ‘matam’ ou inibem o desenvolvimento de pragas e doenças;

• Bioquímicos de origem natural – péptidos ou enzimas;

• Extratos – óleos de plantas.

BASF suporta práticas agrícolas mais sustentáveis

Paulo Lourenço, country registration manager da empresa, assegura que “o empenho da BASF tanto em meios humanos como económicos no sentido de suportar uma prática agrícola mais sustentável é evidente nas soluções que estamos a desenvolver e no mote da nossa investigação. Em 2019 investimos 900 milhões de euros em I&D”.

No âmbito dos biopesticidas, a BASF “obteve o registo em Portugal do SERIFEL®, fungicida à base de Bacillus amyloliquefaciens estirpe MBI 600”, refere Paulo Lourenço, adiantando que “o SERIFEL é um fungicida biológico que apresenta um novo modo de ação, composto pela estirpe do MBI600 do Bacillus amyloliquefaciens”.

Trata-se de um fungicida de superfície dotado de ação preventiva, que inibe o desenvolvimento dos fungos patogénicos através da ação antagónica provocada pela competição espacial (formação de uma barreira física a qual impede a ligação do fungo à planta); secreção de hipopépticos, produzindo uma zona de inibição de colonização dos patogéneos, e por fim, através da indução dos mecanismos de resistência fisiológicas na planta, explica o responsável.

A ação do SERIFEL sobre os fungos patogénicos traduz-se na interrupção da germinação dos esporos e do crescimento micelial através da modificação da estrutura da membrana. Tem registo essencialmente em vinha e hortícolas para o controlo de podridões.

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O country registration manager da BASF diz ainda que “as feromonas, da nossa marca RAK, também podem ser incluídas no âmbito dos biopesticidas, neste caso na valência dos inseticidas, luta biotécnica pelo método de confusão sexual” e “recentemente estabelecemos com a AgBiome uma parceria para o lançamento na Europa do fungicida biológico à base de Pseudomonas chlororaphis – strain AFS009”.

Paulo Lourenço não acredita que “para o desafio hercúleo que temos pela frente, haja uma solução única. O desafio terá de ser enfrentado de forma concertada e ‘atacado’ sob diversas formas”.

Syngenta aposta nas soluções biológicas

Por seu lado, a responsável pelo Portfolio de Proteção de Culturas e Biológicos para a Syngenta Iberia, explica que a empresa “tem uma forte linha de trabalho na área da agricultura sustentável, inerente a uma boa utilização dos nossos produtos, ferramentas que colocamos à disposição do agricultor numa ótica de gestão sustentável dos recursos naturais (solo e água)”.

Maria do Carmo Pereira destaca que, “no futuro, estas questões vão ganhar um espaço distinto e o Pacto Ecológico Europeu vai marcar um antes e um depois, sobretudo pelos requisitos impostos ao agricultor a partir de 2023, com a nova Política Agrícola Comum, nomeadamente, pela redução da utilização de 50% de produtos fitofarmacêuticos (7% ao ano até 2030), práticas que poderão ser diretamente incentivadas pelas ajudas comunitárias”.

Mas, alerta: “Há uma série de questões a ultrapassar no marco do registo europeu (de produtos fitofarmacêuticos) e o desafio será ajudar o agricultor a cumprir os novos requisitos da PAC e do Pacto Ecológico Europeu. Porém, é fundamental que as atuais soluções de proteção das culturas continuem disponíveis, até que novas tecnologias sejam postas à disposição dos agricultores europeus, de modo a que possam fazer uma adequada proteção integrada das culturas.

A responsável da Syngenta afirma ainda que “os produtos biológicos (biocontrolo e bioestimulantes), combinados com tecnologias digitais de apoio à decisão (programas de monitorização de pragas e doenças e de apoio ao posicionamento dos tratamentos), são ferramentas em que a Syngenta, como empresa de investigação e desenvolvimento, está a apostar”.

No que respeita a soluções como o cobre e o enxofre, classicamente posicionadas para uso em modo de produção biológico, a Syngenta dispõe “de produtos como o Thiovit e o Cuprocol, e mais recentemente, o Cuprantol Duo (fungicida cúprico), e vamos continuar a investir neste segmento”.

Maria do Carmo Pereira lembra que “outro segmento de mercado bastante representativo são os Bacilus: em 2020 lançámos o Costar (bioinseticida à base de Bacillus thuringiensis para controlo de lagartas de lepidópteros) e esperamos apresentar ao mercado português ainda este ano o Taegro (biofungicida à base de Bacillus amyloliquefaciens), aguardando que nos seja concedido o registo para uso em agricultura biológica”.

Enquanto “no segmento da captura em massa, em abril, lançámos o Karate Trap (armadilha para captura mosca-do-Mediterrâneo) para uso em citrinos e outras fruteiras e estamos a avaliar este tipo de tecnologia para outras culturas como por exemplo o olival (controlo da mosca da azeitona)”.

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A responsável da Syngenta informa ainda que a empresa dispõe de “três caminhos para fortalecer o nosso portfolio de soluções biológicas: acordos com empresas terceiras para acesso a novos produtos (captura em massa, bioestimulantes, entre outros) no curto prazo (dois a três anos); investigação em colaboração com outras empresas (ex: parceria com a DSM) para obter soluções a médio e longo prazo; e acordos com a indústria farmacêutica (ex: Novartis) que pode ser o berço de muitas e boas soluções alternativas para proteção das culturas”.

Por último, defende que, “a par do portfólio (produtos), há a necessidade de um trabalho intenso de aproximação da indústria ao setor – distribuição, agricultores – no sentido de informar, esclarecer e formar, porque as biosoluções têm um perfil, utilização e performance distintas dos fitofármacos convencionais”, lembrando iniciativas como a Operation Pollinator.

Maria do Carmo Pereira considera também que “os requisitos no futuro vão além da proteção das culturas, exigem uma visão de 360º. O grupo Syngenta detém uma empresa de sementes hortícolas e a nossa visão passa por integrar soluções” e “esta nossa visão de 360º passa por um compromisso com a agricultura sustentável, através do The Good Growth Plan”, conclui.

InPP aposta em soluções biológicas

A procura de soluções inovadoras e sustentáveis para a proteção das plantas é também a missão do InnovPlantProtect (InPP), um laboratório colaborativo criado por iniciativa da Universidade Nova de Lisboa, associando 12 instituições públicas e privadas (Universidade de Évora, INIAV, Câmara Municipal de Elvas, Bayer Crop Science, Syngenta Crop Protection, Fertiprado, CEBAL, Casa do Arroz, Anpromis, ANPOC e FNOP).

Pedro Fevereiro, diretor executivo do InnovPlantProtect, explica à Agriterra que “os produtos a desenvolver pelo InPP têm de ser mais sustentáveis e amigos do ambiente, pelo que terão de ser de origem biológica e ser específicos para o problema em questão. A finalidade do InPP é criar soluções baseadas no conhecimento já existente e explorando, em particular, a informação genómica sobre as pragas e doenças. Os recursos digitais do InPP serão utilizados para desenvolver modelos de previsão de disseminação de pragas e doenças emergentes e para análise de risco”.

Neste momento o InPP tem em curso os seguintes projetos: “Desenvolvimento de um biopesticida para controlar a Xylella in planta; Desenvolvimento de uma estratégia molecular para controlo da estenfiliose na pera rocha; Identificar alelos de trigo panificável resistentes à ferrugem amarela e mobilizá-los para as variedades desejadas; Desenvolvimento de ferramentas com base em Sistemas de Informação Geográfica para ajuda na tomada de decisão pública e privada para análise de evolução e controlo de pragas e doenças; e Desenvolvimento de um sistema de deteção precoce baseado em Inteligência artificial e sensorização remota do declínio de sobreiros e azinheiras por Phytophthora em ecossistemas de montado", refere Pedro Fevereiro, adiantando que estão também em preparação vários outros projetos, como o “Desenvolvimento de um biopesticida para controlar a piriculariose no arroz; e o Desenvolvimento de uma estratégia molecular para prevenir a Gafa no olival”.

O colab presta também um conjunto de serviços laboratoriais e digitais que permitirão aos produtores agrícolas melhorar a sua eficiência.

Empresas ou entidades relacionadas

BASF Portuguesa, S.A.
Syngenta Crop Protection, Lda.

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