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VITICULTURA EM PORTUGAL 54 Viticultura: recuperar as castas autóctones Portugal tem cerca de 300 castas autóctones. Algumas delas quase desapareceram. Pelo que impera a pergunta: Qual a importância das castas autóctones? E vale a pena investir na recuperação de castas que quase desapareceram? Alexandra Costa A lista de castas autóctones em Portugal alcança quase a fasquia das três centenas. No entanto muitas delas têm uma produção residual ou quase inexistente. Nas últimas décadas os produtores optaram por concentrar esforços em castas que sejam mais fáceis de trabalhar, que tenham uma maior produtividade ou se encaixem no gosto do consumidor. No entanto isto significa não só perda de diversidade como de todo um historial que, depois de extinto, será difícil recuperar. Felizmente, por um lado, há um banco de dados que armazena exemplares destas castas, a Coleção Ampelográfica Nacional (CAN), pertencente ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), localizada em Dois Portos. E, por outro, recentemente vários produtores encetaram ações de recuperação de algumas castas. O exemplo mais recente foi anunciado a 10 de março, pela Goparity e pela Azores Wine Company, que anunciaram uma campanha de financiamento com o objetivo de angariar 275,5 mil euros, a utilizar na recuperação das castas autóctones dos Açores, tais como o Terrantez do Pico – casta que há poucos anos estava em vias de extinção –, o Arinto dos Açores, o Verdelho, o Saborinho, o Bastardo, o Malvarisco e o Boal. Uma iniciativa explicada por António Maçanita, fundador da Azores Wine Company: "nos Açores, todos os desafios têm um grau de dificuldade acrescido! Na ilha do Pico a viticultura é uma das mais exigentes do planeta. As vinhas crescem nas fendas da rocha vulcânica, por entre muros de pedra, num solo de lava que desafia a própria definição de solo, sujeitas a um clima húmido propício à propagação de doenças e bem próximas do mar, o que por vezes pode queimar as culturas. Mas é nas dificuldades que o Homem se supera, e destas vinhas nascem vinhos extraordinários, de classe mundial. A nossa missão é resgatar um passado glorioso dos vinhos do Pico, e trazer de volta castas quase desaparecidas. A última década trouxe muito reconhecimento aos vinhos dos Açores, mas há ainda imenso por fazer. Queremos continuar a contribuir para uma transformação social e económica, devolvendo à ilha do Pico notoriedade a par da preservação de uma Paisagem e Cultura da Vinha e do Vinho que é Património Mundial da Humanidade”. Sobre a importância de preservar as castas autóctones, Jorge Cunha, investigador do INIAV, refere, no seu artigo 'A identidade das castas de videira portuguesas aptas à produção de vinho no contexto ibérico e europeu’ que “a correta identificação das castas é imprescindível à sua preservação, à valorização do seu potencial produtivo e qualitativo e à sua multiplicação, de forma a perpetuar a sustentabilidade da Vitis vinifera L. às gerações futuras”. O investigador acrescenta que “a riqueza do património vitícola português tem vindo a mostrar-se como um fator fundamental na identidade e na afirmação dos vinhos portugueses”.

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