BA20 - Agriterra

53 VITICULTURA EM PORTUGAL podem causar situações de stress hídrico severo, com impactos negativos quer no crescimento vegetativo (com uma redução do vigor), quer na produção (redução da fertilidade, peso do bago, peso do cacho), quer ainda na qualidade dos vinhos (excessivamente alcoólicos, com falta de acidez, com aromas de sobrematuração)”. Então e em relação à vinha do regadio? “A introdução da rega e a aplicação de estratégias de rega deficitárias (uma vez que a qualidade é otimizada para níveis de stress hídrico moderado a forte, mas não severo) permitem atenuar os efeitos descritos e garantir a viabilidade económica da cultura. Um aspeto ainda importante relacionado com a rega é a possibilidade de minimizar os efeitos das ondas de calor, reduzindo a incidência do escaldão, desde que a gestão da rega seja adequada”, aponta Jorge Cunha. A verdade é que ambos os regimes – sequeiro e regadio - são dois dos sistemas mais implementados no mundo. De uma forma muito simplista a técnica de sequeiro assenta numa combinação de técnicas naturais que aproveitam, preservam e aplicam chuvas e a humidade do solo nas culturas. Normalmente, este sistema é implementado em áreas semiáridas onde há poucas estações chuvosas. Já no caso da vinha de regadio, como o próprio nome indica, os agricultores utilizam infraestruturas e tecnologias que permitem uma melhor gestão dos recursos hídricos. Nos últimos anos houve uma grande evolução nas técnicas e formas de trabalhar a vinha de regadio. Inicialmente a irrigação baseava-se em valas ou canais (alimentados por lagoas de irrigação). Hoje recorre-se a sistemas inteligentes de controlo de irrigação e produtos de monitoramento, como sondas de humidade do solo. O resultado é uma otimização dos recursos hídricos e um menor stress hídrico da planta. ADAPTAÇÃO DAS CASTAS AO TIPO DE VINHA A decisão de optar por um dos tipos de vinha assenta não só na localização e morfologia, mas, também, no tipo de castas plantadas. Porque, como refere Jorge Cunha, há claramente castas que se adaptam melhor a um sistema do que a outro. “No que diz respeito a regiões basta pensar na distribuição da precipitação no território português”, aponta o investigador do INIAV. Mas de que forma isso se concretiza? Comparemos Beja e Braga. Em Beja, de acordo com as normas climatológicas (1981-2010), temos uma precipitação anual de 555 mm, com 190 mm de março a setembro. Em Braga temos uma precipitação anual de 1.452 mm, com 553 mm durante o ciclo vegetativo. Isto significa, explica Jorge Cunha, que em termos de evapotranspiração de referência temos também diferenças muito grandes entre regiões, muito maiores do sul para o norte e do interior para o litoral. Ou seja, “relativamente às castas (e também aos clones) podemos ter castas com uma maior eficiência no uso da água que estarão melhor adaptadas a condições mais extremas e castas com menor eficiência no uso da água e logo mais dependentes da rega”. A questão, para o investigador do INIAV, prende-se com encontrar as castas que melhor se adaptem às condições climáticas previstas para o futuro próximo que tenham quer uma boa eficiência no uso da água quer um potencial produtivo e enológico adequado. Um trabalho de investigação que, felizmente, tem sido feito nos últimos anos, no Grupo operacional WineClimAdapt (https:// wineclimadapt.pt/bases-de-dados/). O IMPACTO DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS Tendo em conta a era em que se vive, com situações de seca extrema seguidas de períodos de grande 'descarga' de chuva, será necessário optar por um dos sistemas de vinha? Haverá forma de os viticultores conseguirem antever cenários? Essa é uma das grandes questões. “A água/regadio é uma das questões- -chave em termos de adaptação da agricultura às alterações climáticas em climas mediterrânicos devido aos aumentos da temperatura, com o consequente aumento da procura atmosférica, à tendência de redução da precipitação e à maior variabilidade climática”, refere Jorge Cunha. O problema, no caso português, não se prende tanto com a quantidade de água anual – Portugal recebe muito mais água do que Espanha, por exemplo – mas sim com a sua distribuição. O país enfrenta longos períodos em que não chove uma gota sequer para, em pouco tempo, receber um dilúvio. Sobre isto o investigador do INIAV é taxativo: “a variabilidade na distribuição da precipitação, na procura atmosférica e reserva de água utilizável dos solos (frequentemente a vinha é cultivada em solos com reserva utilizável inferior a 100mm) condicionam a opção por sequeiro ou regadio. Contudo podemos afirmar que em algumas regiões a vinha dificilmente será economicamente viável sem regadio”. Jorge Cunha compara a vinha com outras culturas como o olival, explicando que será interessante avaliar em que culturas poderemos tirar mais valor (económico, social) por unidade de água de rega aplicada. “Se tivermos em conta as dotações de rega de referência da DGADR para o Baixo Alentejo, num cenário de ano médio temos para a vinha uma dotação de rega de 2.441 m3/ha. Já para o olival em sebe e para o amendoal temos 4.200 m3/ha e 7.040m3/ha respetivamente. Assim, grosseiramente podemos dizer que o olival em sebe necessita do dobro da água da vinha e o amendoal do triplo. Este rácio pode aumentar se a vinha for conduzida para vinhos de qualidade em que se pretende aplicar uma intensidade de stress moderada a forte”, conclui o investigador. n

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